Semana de Arte

Semana de Arte
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SEMANA DE ARTE

Percurso de Paisagem no hemisfério sul
Camila Rocha

O primeiro projeto individual da artista Camila Rocha, na Emmathomas Galeria, se dá no contexto da Semana de Arte de São Paulo, por apenas três dias. Fugaz.

Coube à artista o desafio de criar um jardim endêmico entre quatro paredes imaginárias – um labirinto com novas espécies de plantas que preenchem o espaço. Ora suspensas no vazio, ora nas paredes juntas a desenhos de sementes fantásticas coletadas pelas bandas de Paraty – cidade colonial à beira mar. Essas vão esparsas pelas mesmas paredes brancas e curvas que tornam o espaço uma unidade infinita.

Curvas e corredores que circundam entre as plantas e o olhar do espectador provocam um dinamismo dentro do vazio espacial. É a curva que sustenta o fundo na paisagem.

O que faz Camila Rocha é uma pintura a partir da natureza: da sua observação científica das formas diversas de plantas, dos seus rizomas, das suas colorações e volumes.  Cria uma floresta telúrica, quase que uma devoção ao mundo visível e natural. Uma busca da realidade no mundo vegetal sem deixar de lado as sensações e o caos das impressões sobre as plantas. Encontra beleza na espessura da natureza e na origem dos vegetais sugeridos por suas cores que criam sentidos táteis visuais.

Mas a obra de Camila Rocha pede mais que essa velocidade dinâmica das feiras de arte. É necessário um tempo de contemplação e introspecção, pois pode-se dizer que a pintura nos atinge pelo mundo subjetivo feito de cores, linhas e formas. Um estudo preciso das aparências da natureza. As plantas são observadas dos livros de botânica e nas imagens disponíveis na contemporaneidade. Não se faz necessário observar a natureza como os impressionistas em pleno ar livre.

Capta as imagens de plantas para suas colagens que tomam ares fantásticos. Faz com esse material impresso e recortado uma outra imagem mágica com relevo aveludado, sedutor e deslumbrante.

A instalação pictórica funciona como um oásis entre os demais stands da feira, convida para entrar e ser notado. É necessário um outro tempo para decifrá-lo, o que leva o público observador para outro plano, diferente do que é visto nas paredes repletas de trabalhos de arte de centenas de artistas, reunidos em um mesmo espaço.

As pinturas, os relevos pictóricos espaciais, os desenhos e as colagens impressionam nossa visão atacando os sentidos da nossa memória visual, olfativa e tátil.

Diante da instalação da artista que recebeu o sugestivo título de “Percurso de Paisagem”, a primeira sensação que vem é de que o belo é verdadeiro nesse caso.

Ao adentrar o espaço expositivo, sem dúvida, a verdade é inebriante e bela. Estamos diante do deslumbramento visual que ocupa o horizonte dessa mostra.

Trata-se de um jardim imaginário e tropical, com plantas exóticas e amorfas vistas na natureza, no mundo vegetal e na beleza dos detalhes de uma trama feita de linhas e cores, desenhadas naturalmente sobre folhas e pétalas. A artista interpreta a natureza.

As plantas e as sementes germinam pela sua dispersão, gerando dinamismo na parede curvada que tira do canto o fim em si. Temos a coluna-tronco como sustentação do espaço, céu e terra. A planta que se faz também coluna e que se multiplica “serpenteando-se” em si mesma. Como os bichos de Lygia Clark quando expostos emaranhados com troncos de madeira.

A Planta Híbrida é metade planta, metade paisagem e tela ao mesmo tempo que toma forma de planta novamente, enrolando-se faz da frente o fundo e do fundo, a frente.

A artista faz colagens reorganizadas com mudas encontradas na rede digital. Depois de coletadas faz uma poda agrupando-as numa outra paisagem. Tudo paira no equilíbrio. A cor é plena e a forma na sua plenitude advinda do mundo vegetal.

A pintura e os relevos de Camila Rocha revelam o fundo da natureza inumana onde nos instalamos e estamos a germinar. A paisagem como organismo nascente onde a artista projeta, fixa e objetiva – pinta o já pintado pela própria natureza.

Camila nos dá o sentido literal visual de sua obra, nos resta decifrá-la nessa exposição Percurso de Paisagem.