Arco Madrid 2014 | Lucas Simões

Arco Madrid 2014 | Lucas Simões
Zwei Arts

ARCO MADRID 2014 | LUCAS SIMÕES

Solo Show realizado pela Galeria Emma Thomas na Feira Internacional ArcoMadrid 2014, Espanha

Demolição de Pruitt-Igoe ou a nostalgia do impossível
María Iñigo Clavo

A obra de Lucas Simões é permeada por um desejo de mostrar o reverso das imagens, um impulso para discutir as representações de poder/saber.

A primeira operação é revelar sua materialidade, mostrar como sua aparente bidimensionalidade está repleta de vazios, dobras, camadas, buracos e desníveis.

Para isto desdobra estas representações em uma nova tridimensionalidade inventada, uma perspectiva material cheia de sombras, reflexos, de espaços vazios, mostra um ritmo, uma cadência.

Abre à representação tridimensional, ao mesmo tempo que esconde e oprime o bidimensional. Esconde e revela.

O artista se concentra em desconstruir desestruturar unidades de conhecimento ocidental por excelência, o livro e o mapa. E também o rosto, com o qual faz “desretratos” (2010-2013), dado que em certo processo disciplinar a expressão também se constitui socilamente como elemento político. “Certos dispositivos de poder necessitam produzir um rosto.” Como Deleuze e Guattari insistem em seu belo texto sobre “a rostidade”, um rosto é um espaço em branco onde foram abertos buracos e é através deles que torna-se possível a experiência subjetiva que aparece “como a consciência ou paixão, a câmera, ou o terceiro olho”. Às vezes, os mapas de Simões escondem retratos, ou o seu verso. No cinema, o primeiro plano é usado para mostrar as sombras “até afundá-lo na escuridão” mas também para refletir a luz . Então, não é por acaso que as intervenções de Simões estão cheias de espelhos, pois perante um dispositivo de poder, perante um discurso, nossa própria subjetividade molda-se automaticamente, e vemos distorcidos nós mesmos e o nosso redor. “Brancura subjetiva, buraco capturante, o rosto”.

Obras como “Deslocamentos” (2008), “Verso” (2008) , ou “Nuevos Barrios Residenciales” (2010), descodificam esses instrumentos de controle e poder para neutraliza-los numa nova função poética. Quando a estratégia de representação é substituída pela apresentação, coloca-se em primeiro plano a necessidade de uma consciência histórica a respeito do papel que imagens ocupam em nosso presente. Em suas obras há algo a ser descoberto que não temos acesso, isso fica muito claro em “Não-ditos” (2013), estruturas de cimento com formas concretas familiares que contém folhas de papel. Estas estruturas pesadas e rígidas parecem ter uma saída para liberar as camadas de folhas, mas são sempre promessas não cumpridas , insinuações que tornam visível o desejo frustrado de conhecer as representações que contêm. O que não é dito? Malditos pontos cegos.

Estas peças fazem parte da pesquisa apresentada pelo artista na galeria Emma Thomas em 2013, intitulada “O peso, o tempo”, onde os materiais geram um diálogo de peso, posição, densidade , espessura e especialmente de gravidade. O cimento é um elemento de construção pesado, que limita qualquer possibilidade de um movimento suave. Sustenta. No entanto, em “ Bebadosamba “ (2014) ele é colocado na posição de ser sustentado: vários copos de vidro dão forma ao cimento em seu interior. O material leve, suave e etéreo do cristal impõe a forma e modela o concreto, aparentemente mais agressivo e primário.

Desta maneira é gerado um equilíbrio extremamente precário com o perigo de uma ruptura iminente.

Os espaços semi-abandonados das salas do Pivô deu-lhe a oportunidade de pensar sobre certa “arqueologia de um desuso moderno”, como cita Simões . O espaço está localizado no Copan, um dos edifícios mais paradigmáticos de São Paulo projetado por Oscar Niemeyer. A proposta era necessariamente labiríntica evocando não só a experiência do edifício, mas também uma perda de orientação. Referindo-se diretamente ao projeto moderno brasileiro, cuja narrativa nacional tem o Modernismo como um dos seus pilares principais . Como sabemos a arquitetura era uma parte crucial do discurso ideológico que acompanhou o projeto de desenvolvimento do Brasil. Para isso era necessário educar a população, disciplinar os corpos a qualquer custo branqueá-la era inclusive necessário. Como Fabiola López Durán2 mostrou nos estudos de Le Corbusier, as suas aspirações à pureza na arquitetura acompanhou o seu interesse por pseudociências racistas como a eugenia.

Portanto, não é por acaso que Simões tenha se interessado por projetos como o de Pruitt-Igoe para a obra “Deluded Detachment” (2014) que apresenta na ARCO . Este projeto foi lançado como um novo modelo de habitação social, afastado do centro da cidade de St. Louis. No início, a população negra e a branca foram distribuídas em edifícios diferentes. Pruitt é o nome de um piloto de guerra afro-americano e Igoe um antigo congressista branco. Quando a segregação foi proibida nos EUA, a população branca optou por se mudar dos edifícios ao invés de viver em condições de igualdade com os habitantes negros. Uma vez que se tratava de habitação social, o governo restringia os direitos dos habitantes impondo normas impossíveis de cumprir, até mesmo a pobreza como uma sociedade incivil3, sem qualquer possibilidade de autonomia ou ganho de poder. O vandalismo progressivo foi crescendo até a deterioração dos edifícios e, por final, sua demolição, vinte anos após sua festejada construção com a finalidade de eliminar um foco de criminalidade. Culpou-se projeto arquitetônico por ser impossível de ser mantido devido a baixa renda de seus habitantes, mas também ao Estado que abandonou o recinto à sua sorte. Há outros Pruitt-Igoes que tem sido parte desta pesquisa, desde o Poblado de absorción Fuencarral B em Madrid até a urbanização da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, ou o Robin Hood Gardens, em Londres ou o edifício São Vito – São Paulo.

Simões não trabalha somente com a planta dos pequenos apartamentos, mas também com as imagens de sua demolição. Para muitos, a data da demolição de Pruitt-Igoe, 15 de julho de 1972, marcou o início do pós-modernismo por ser o resultado claro do preço da modernidade. É difícil não contrastá-la com a queda das Torres Gêmeas, um projeto do mesmo arquiteto, Minory Yamsaki. Embora ele tenha lamentado o alcance da maldade humana, seria melhor falar das vidas prejudicadas, como apontou Adorno em Minima Moralia, uma das referências do artista no processo de desenvolvimento de “Deluded Detachment” (2014). Adorno queria repensar a história a fim de abandonar os discursos triunfalistas, um sintoma da crise de um modelo de narrativa teleológica após a Segunda Guerra Mundial. Isto lhe ajudaria a compreender o presente como uma conseqüência do que vem se arrastando do passado, “é tolo e sentimental querer manter o passado limpo da sujeira do presente.”4 Já dizia uns dos primeiros ideólogos da nação, Ernest Renan , em 1882, que o esquecimento “- Inclusive diría o erro histórico”- é um dos elementos mais importantes para a criação de uma nação, por isso os historiadores só podem ser vistos como uma ameaça.

A reflexão de Simões sobre a arquitetura tem a ver com a maneira com que as grandes ideologias concebem seus projetos dando as costas para as pessoas e suas necessidades. Por trás desses projetos de ordem se revela um inhumanismo. O modernismo arquitetônico brasileiro tornou-se luxo e sinal de status social muito mais do que uma alternativa para a população. Essa desconexão ou desapego de “Deluded Detachment “ (2014) tem a ver com as grandes promessas não cumpridas do Modenismo que atravessa a obra do artista, as mesmas questões que faziam parte dos debates que levaram autores como Habermas à argumentar que a modernidade é um projeto incompleto.

O “não dito” das famosas formas concretas que acompanharam a celebração do desenvolvimento. Também aparece em sua reflexão sobre os bichos de Lygia Clark em sua obra “Engessados” (2014). Nela, as paradigmáticas peças manipuláveis da artista foram cobertas com concreto, tornando-se paralisadas e fossilizadas, emudecidas, já não permitindo qualquer intervenção por parte do espectador, aquela miragem da arte para o povo fica frustrada. Há também objetos fossilizados em “Deluded Detachment”, sinais de uma vida passada, rastros de uma cidade fantasma. O espectador pode andar ao redor, mas não pode atravessá-la. Dá-se uma tensão entre história e memória do movimento humano que o habitou. Assim como, as taças de “Bebadosamba” (2014) foram silenciadas, não haverá brindes. Bebadosamba é o nome de uma canção de Paulinho da Viola, em que o músico invoca o nome de sambistas clássicos brasileiros para ajudá-lo a criar o seu próprio samba. A retórica nacional não pode deixar de exibir uma melancolia de suas próprias promessas não cumpridas. Em “Bebadosamba” a celebração moderna tornou-se a pesada carga do passado, equilíbrio precário para com a história, um fim de festa denso, lento, pesado que nos mostra a urgência de revelar seus “documentos secretos” (2013).