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Entrevista com Mundano

Entrevista com Mundano
13 de abril de 2018 Stefânia Sangi

Mundano é símbolo de ativismo. Usa a arte para resistir e conscientizar sobre os problemas socioambientais no Brasil e no mundo. Com o seu “graffiti paporreto”, cria frases contundentes que interagem com a realidade dos países por onde passa: Colômbia, Peru, Argentina, África do Sul, Tanzânia, Rússia, Bélgica, Áustria, França, Alemanha, Japão, entre outros. Agora, como parte do corpo de artistas da Emmathomas, Mundano ganha um novo espaço para reforçar a ideia da arte como agente questionador. Seja com uma lata na mão pintando um viaduto em São Paulo, seja expondo tela em Nova Iorque ou pintando uma carroça em Bogotá, a missão do artivista é sempre a mesma: trazer à tona questões ignoradas pela sociedade.

De onde vem o nome Mundano?

Vem de Mundānus, que pode ter diferentes significados nas línguas originárias do latim. Em português, se refere ao mundo ou o que é pertencente a ele, aquele que vive o terrestre, o comum, o superficial, que só valoriza o material. Pessoas mundanas são ligadas aos prazeres do mundo. Por isso, Mundano já é, de cara, um nome de protesto.

Por quê artivista?

Eu já fui o garoto problema, pixador, grafiteiro, artista plástico, ativista e empreendedor social. As nomenclaturas vão mudando, mas estou sempre buscando a mesma coisa: gerar reflexão sobre problemas dos grandes centros urbanos, cobrar as autoridades e trazer visibilidade ao povo oprimido. Os desafios desse mundo caótico são imensos e parecem só aumentar. E, nessa minha trajetória, percebi que a arte aliada ao ativismo é uma poderosa ferramenta de transformação social. É daí que surge o termo artivismo, que ganha a cada dia mais força, usos e adeptos.

Mesmo a arte engajada – graffiti em muros com autorização – ainda é vista como ‘depredação e vandalismo’. Qual sua opinião sobre isso?

Vejo como algo natural do ser humano que começa desde os primeiros rabiscos nas cavernas, até a pixação política para derrubar um ditador. São expressões presentes no mundo todo. Às vezes, é a única alternativa para gritar, já que a mídia de massa é seletiva e parcial e o graffiti é livre e independente. Para mim, vandalismo é construir muros e segregar a cidade, é a propaganda que não me pede autorização, é a corrupção que desvia dinheiro público que deveria ser investido na educação, é derrubar praças e construir prédios, é preconceito racial e de gênero que ainda mata muita gente, é tirar pertences de alguém em situação de rua. Uma cidade inteira pintada, como São Paulo, escancara os vandalismos diários que sua população sofre.

Comente a censura e violência contra artistas e contra a arte. Você acredita que estamos em um contexto importante de resistência e ação?

Censura é o maior dos elogios. É um indicador de que a obra fez sentido, que incomodou. Eu já fui censurado diversas vezes, não só no Brasil, justamente porque a minha arte não é decorativa. A censura é um combustível já que vivemos em um contexto de resistência. A liberdade de expressão ainda não é uma conquista de todos. Por isso, se apagarem, vou lá e faço de novo!  No Brasil, grafitti é um crime ambiental, a polícia ainda reprime com truculência artistas de rua que buscam expressar sua indignação. É inadmissível que dezenas de artistas continuem morrendo com latas de spray na mão.

As ruas, as pessoas, as relações e as desigualdades sociais estão presentes em seu trabalho. Como é o seu processo criativo? O que te inspira?

O meu processo criativo é muito orgânico e desorganizado, é tanto motivado pelo contexto social, ambiental e político em que vivo, como também pelas interações com as pessoas e com as cidades por onde passei. Cada vivência é uma inspiração. E cada experiência é única, o que permite obras criadas em poucas horas ou em muitos meses. Uso diferentes suportes além dos muros, a maioria de reuso, encontrados nas ruas ou presenteados por catadores.

 

Fale sobre os personagens e elementos que compõem seus graffitis.

Como no grafitti é preciso ser muito rápido, simplifiquei o traço, o que acabou criando uma identidade para os personagens, facilmente reconhecidos pelas narinas vigorosas, lábios fartos e olhos atentos. O verde é a cor mais presente e representa a minha relação pessoal com a natureza, assim como as demais cores vibrantes que, em geral, compõem minha paleta. Nesse contexto, incorporo outros elementos com alguns simbolismos às obras. O cacto, por exemplo, retrata a resistência do povo brasileiro, pois mesmo num ambiente árido, com pouca água, consegue florescer. O lixo, também presente em diversas obras, representa o desperdício e o descaso com os recursos naturais, cada dia mais escassos.

Como você pretende manter o ativismo que caracteriza seu graffiti dentro de um contexto comercial, em um espaço de galeria?

Não é porque estou expondo minhas obras em uma galeria que perderei minha essência, meus temas de protesto, minha constante indignação pelos problemas do mundo, meu ativismo. Pelo contrário, é uma oportunidade de criar uma obra ativista permanente, já que na rua é efêmera. De certa forma, eu acho incrível ter obras duráveis nesta vida breve. Meu objetivo não é comercial, é com a minha arte. É deixar uma mensagem que contribua com a criação de um legado irreversível e positivo. A galeria, neste caso, será a extensão de um trabalho que eu já faço há 19 anos na rua.

O trabalho de Mundano com os catadores de materiais recicláveis começa com a junção natural da arte marginalizada, o grafiiti, e do trabalho ainda marginal dos catadores. São 11 anos de trabalho e luta contra as violações de direitos humanos que sofrem diariamente e, também, pelo reconhecimento da categoria – que encontra-se em situação de vulnerabilidade social. Mundano critica o descaso do poder público em relação à coleta seletiva, ao gerenciamento de resíduos sólidos e desperdício de materiais e recursos naturais.

Cada pessoa produz, em média, 400 kg de resíduos sólidos por ano. Desses, apenas 12kg são reciclados, sendo 11kg coletados por catadores. Ou seja, mesmo prestando um serviço não remunerado de limpeza pública, fazendo a coleta seletiva e a logística reversa de produtos, os catadores e catadoras seguem na invisibilidade, sem o devido reconhecimento e apoio do poder público.

Pimp My Carroça  

Fundador do Pimp My Carroça (2012), Mundano trabalha ativamente para a ONG continuar circulando no Brasil e em outros países. Pensando na pluralidade e diversidade do movimento, engajou milhares de voluntários para expandir a atuação do Pimp My Carroça, que já passou por 13 países, 46 cidades e envolveu mais de 900 artistas que impactaram a vida de mais de 1000 catadores e catadoras.

Após seis anos de projeto, o Pimp My Carroça tornou-se uma das maiores exposições públicas de arte ambulante, sendo reconhecido em 2017 com o 3º International Award For Public Art, em Hong Kong. “Quando você leva cor para as carroças, você faz com que as pessoas percebam e comecem a interagir com esses verdadeiros heróis invisíveis”, conta o artivista.

Transcendendo os limites artísticos, o Pimp My Carroça criou o Cataki, um aplicativo que conecta catadores com quem quer reciclar, aumentando assim a sua renda e os índices de reciclagem. Em 2018, o Cataki ganhou o Prêmio Netexplo de Inovação Digital na sede da Unesco, em Paris. “Isso só mostra como a arte pode transcender as paredes das galerias e os muros nas ruas, sendo uma potente ferramenta de transformação social”, finaliza Mundano.

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