Novo Catálogo Emma

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06 de October de 2017 Stefânia Sangi

Estado de Exceção

Aqui jaz uma arquitetura. E toda sua força vem da destruição. Estas paredes, carcomidas, foram compostas por um conjunto social, que agora dela só tem lembranças. Nelas, as impressões do tempo. Memórias patinadas representativas de um poder, que a sequência dos anos esgarçou. Encontra, porém, vitalidade nas forças produtivas de obras contemporâneas, que sobrepostas, justapostas ou simplesmente, confrontadas nessa espacialidade monumental e oca, figuram como janelas filosóficas, passagens para entremundos, transtemporalidades que coabitam sem se preocupar com rupturas ou coalizões. Aqui, elas estão mais aptas à sensibilia de um conjunto tão desigual, quanto os que encontramos na vida.

O lugar propício para a guerrilha poética não está circunscrito em uma dada geografia. Afinal, é próprio da arte constituir territórios movediços e fluxos de desterritorialização. Melhor dizendo, é o que cabe na atualidade destes tempos, um fazer fazendo-se que transfigura os territórios da arte e o estende na superfície das coisas, em graus de intensidade que só a pele arrepiada pode dizer/sentir, pois, ainda é o corpo que articula as conexões neurais e nos faz responder sobre o input que a mente apreendeu  e processou. Se houver um output, certamente, nos levará ao  lugar no qual está inscrita uma senha libertária, que diz assim: “passe adiante!”: à arte e pela arte. Logo, por favor! Não a estanque, não a desmonte, não lance a ela falsas acusações. Simplesmente, se entregue.

A dor do mundo. O remédio é a arte. Sublime compulsão, desejo e despedaço. O coração da vida é o cérebro da arte. E arde e dói, feito ferida aberta. A relação da arte com quem a faz se estabelece como a ponta de um lápis, que quanto mais se lapida e apruma-se o ponto, mais consome o corpo de sua materialidade. Em compensação, a rígida ossatura da linguagem é maleável ao toque do artista; com ela ele cria repertórios, adensa seu nível cultural e compõe diálogos convexos, bolhas disruptivas que, explodem aqui e ali, provocando debates. Exercícios dos conhecimentos que podem ser de afirmação ou negação do seu sistema operativo. Conflitivo! Nem sempre confrontativo.

Os espaços em que a arte se abriga fugidia ou ostensiva; os que ela instaura cerzidas nas provocações, que se permitem certos estados de arte, neles há muitos tipos de nuezas encarnadas. Entretanto, nem todas ofendem os brios dos vorazes comedores das liberdades, por isso, não a molestam. Bem poderiam, mas não são capazes de percebê-las. São nudezes que se mostram à vista, são eróticas, mas escorrem entre dedos, elas e seus contornos libidinais de potência.  Se uma obra é feita da solução de todos os problemas, que foram surgindo quando ela se formava, não se pode dizer que ao final ela é a solução para algum problema, que você que a vê, que a tem ou a toca lhe tenha inquirido. Você, apenas, foi por ela capturado.

O surpreendente é que nem o artista que a plasmou está livre dessa captura. Aqui o que tem a ver e dizer se refere ao que de mais caro e desafiador há na condição de ser artista e diz respeito à total incapacidade, do criador, de apreender completamente o objeto/criação. Uma obra, mesmo quando se vale da ordem, nunca libera sua plena decifração. Essa é a nudez que provoca rumores, é nela que reside e resiste a força da arte como não resignação e é dela que se alimenta o artista; esse fazedor e devorador de mundos,  cidadão “juridicamente inominável, inclassificável” abjeto a categorizações e generalidades. O incômodo de tudo faz pensar que chega a ser perversa essa amostragem/proposta, que mistura poéticas de gente gentil com força matérica de corpos indóceis.

Assim, para todos aqueles que compõem a massa bruta do “estado de exceção”, que hoje vivemos em escala mundial, o qual se viraliza nas redes sociais e tecnológicas. Aos rotos, que não veem como apropriado o sacrílego e dionisíaco que também há na arte; aos amorais, aestéticos, aéticos, loucos e selvagens e mais, para os que só percebem na Arte bipolaridades maniqueístas; para quem resiste e insiste, aos que amam e aos que odeiam, sem se dar conta de que estamos todos na mesma nau! Portanto, para nós mesmos ofereço este remédio amargo; lembrando que amargo é também um tempero da existência. Amargo, sabor grosso e provocativo, que desnuda a arte e a eviscera em total carnação.

Lídia Souza