Erika Malzoni

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Erika Malzoni (Itapetininga 66 – vive e trabalha em São Paulo) faz uso de diversas mídias como formas de expressão. Seu trabalho resulta do interesse por materiais comuns, de pouco ou nenhum valor, que em geral são descartados ou encontrados ao redor. Esses objetos, destituídos de suas funções originais, são empregados como “matéria” alterada a relacionar-se com sua própria história ou por vezes associando novas narrativas. Tem interesse pelo desenho e na conexão estabelecida pela repetição, tensão, sobreposição, justaposição, organização e reposicionamento dos materiais, suscitando questionamentos como o excesso, a memória, o tempo e relacões humanas.

Erika Malzoni uses various media as forms of expression. Her work results from her interest in ordinary materials, of little or no worth, which are often discarded and found around. These objects private from their original functions are employed as modified material to interact with their own purpose and history or, at times associating new narrative to compose her works. The focus is on drawing and in the connection established by repetition, tension, overlap, juxtaposition, organization and repositioning of the materials, raising questions such as excess, memory, time and human relationships. 

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Texto curatorial sobre a mostra 'No meio do tempo'

de Galciani Neves

Nossas histórias individuais narram nossa passagem pelo mundo. É assim que traçamos conexões com as coisas, com as pessoas, com os lugares. Inscrevemos registros orais, imagéticos, afetivos, lembranças que também nos modificam e nos constituem e, assim, ao mesmo tempo, constituímos processos que se espalham, ganhando novas vozes e redimensionando o mundo e seus sistemas de representação e apreensão. Por meio dessas estratégias ficcionais, transformamos nosso entorno enquanto somos porosos a ele e às muitas outras histórias que por aí vagueiam. A arte, como outras tantas tarefas que desempenhamos, adentra essas conexões, traça projetos de mundos (im)possíveis, expande as subjetividades, propõe lentes para avistar nossos dejetos, infernos, esvaziamentos, políticas.

Reside nessas relações e fluxos (mundo, homem, fabulações) um dos pontos discutidos pela artista Erika Malzoni. Trata-se de algo, uma espécie de coeficiente alterável, mutante por natureza, que habita seus predicados e se enquadra em seus procedimentos. Não se faz necessário aplicar um conceito fechado para compreendê-lo, já que esse algo adquire forma e institui um vocabulário não próprio no usufruto e manuseio de coisas reais, banais mesmo, ou seja, elementos reconhecíveis para qualquer um de nós e que participam de nossos meros pactos do cotidiano. E é acerca da condição descartável e de desimpregnação de função desses objetos que a artista desencadeia seus processos de composição. Um ponto de partida tão comum a qualquer um de nós: o objeto ordinário, tendo traçado seu curso normal, largado à arbitrariedade do lixo, do descaso, do desuso.

Mas estes re-usos, re-processamentos, re-dimensionamentos não são isolados, nem ocorrem como uma prática laboratorial de análise de sua composição. Realizam-se em deambulações, em caminhos por entre imagens, coisas, cantos de rua, sobras de lojas, faturas cansadas e perdidas. São ações contextuais, enquanto a artista é apenas sujeito, aguçando seu olhar e se estimulando com aspectos desse amplo e complexo sistema visual, em que estamos todos imersos e implicados, sem esquivar-se das codificações e das filigranas que delineiam nossos itens de existência e sobrevivência (consumistas que somos). Erika trabalha com a força motriz em situação agonizante do que um dia representou algo de importante, desempenhou uma tarefa ou mesmo se originou de um modelo. A artista lida com elementos de ambiência que se retiraram do convívio e os reinclui em outro campo de ação.

Nesse sentido, podemos pensar nos trabalhos da artista a partir da atribuição conceitual do prefixo “re-". Vejamos, então: “re” adiciona a certas palavras um traço semântico de repetição, de ressurgimento, de releitura, fazendo reverberar ou surgir um outro naquilo que preexiste. Mas vale um adendo a essa associação: os procedimentos de Erika não propõem uma leitura do novo no velho, não são recursos de tradução nem de re-feitura. Trata-se de uma prática em que o objeto original, ou seja, sua estrutura elementar não se dilui, tampouco surpreende no surgimento de um outro original. Isto é: gravatas seguem sendo gravatas, ainda que uma porção delas estejam unidas, de modo inusual. O que ocorre no interior dessa instalação é: uma reiteração de ser gravata como gravata mesmo, em sua elementaridade de gravata, mas em outra acepção espacial, visual e também controversa. E assim, moldura segue sendo moldura, sacola segue sendo apenas sacola, gaveta permanece como gaveta. A questão é: há um gesto de reposicionar tudo, de conectar elementos muito distintos entre si, que os reinserem esculturalmente, por assim dizer, em uma dinâmica de experiência distinta daquela na qual aprendemos a espreitá-los.

Nos projetos da artista, os materiais, ainda que descontextualizados de suas tarefas e ambientes funcionais, não se apresentam como novos nem como descritivos de outras funções. Guardam suas memórias ao mesmo tempo em que traçam, em um contexto poético, certa tensão entre o que eram e o que se tornam visualmente, sem submeter-se a novas roupagens. Seguem afirmando o que foram, mas em outra atuação visual. Desempenham seus aspectos de maneira ambivalente e contraditória, comportam-se num espaço de indeterminação. E não perdem a sua dimensão semântica ou material. Essa condição nos provoca muitas dúvidas. Não adianta nem tentar saná-las. É preciso conviver com elas. É esse o convite que Erika nos faz: adentrar o meio do tempo: um tempo/lugar ermo, desértico, abandonado à sua própria sorte, ao acaso, disponível de maneira ordinária. Um dito popular que remete a uma temporalidade indefinível, uma duração quase indizível, pois está disposta ao seu passar, ao seu estar fugidio e longo. Ali, nesse quando, tudo pode estar sem muitas negociações, apenas na condição de ser e empoeirar-se. É desenhando esse tempo/lugar que a artista propõe um vir à tona nas suas composições – colagens tridimensionais, assemblages, instalações – uma outra forma de visualidade, outra conformação, que diz respeito às proporções, texturas, cores, dimensões dos objetos, fazendo refletir todos estes aspectos em um espelho de não-iguais, com outras lógicas visuais, com outras normas de presença, com outras validades empíricas.

Pois bem, é necessário que esqueçamos o contrário, o novo, as manobras tão conjugadas de apropriação. Assim, o que vemos no Museu Histórico de Itatiba, ou melhor, aquilo com o que nos deparamos no espaço expositivo é algo estranhamente familiar que oscila entre o que podemos descrever como exemplos de objetos, como entidades materiais que já encontramos, e o que avança sobre nós, visualmente, em um outro encontro. Os trabalhos de Erika não obscurecem, nem minimamente, a natureza dos objetos envolvidos, mas nos arremessam a implacabilidade de nossos gestos de fazer envelhecer e substituir tudo muito rapidamente.

No meio do tempo é um inventário de esquecidos.

Galciani Neves

(abril/2016)