News

Work.In.Process 2 | Rodrigo Bueno | Rebento |

A Emma Thomas exibe a ocupação “Rebento” do Ateliê Mata Adentro, de Rodrigo Bueno, na segunda edição do “Work.in.Process”, projeto no qual um artista convidado expõe parte de seu processo criativo na galeria. “É o espaço intermediário entre o ambiente do ateliê e uma exposição individual, onde o foco é no desenvolvimento do processo criativo anterior à idealização de uma mostra”, explica Juliana Freire.

Rodrigo Bueno utiliza materiais reciclados que garimpa em ferros-velhos, ruas ou por doações e as obras exibidas nos espaços do segundo andar e no terraço da galeria estão em construção ou finalização durante o período expositivo.

Nesta edição do “trabalho em processo”, Bueno orquestra diversos meios para que a “dinamização dos espaços” aconteça. “É a transformação do cubo branco como se fora uma extensão do ateliê, onde o visitante se veja próximo do processo construtivo, que difere da experiência comum em uma galeria ou museu. Sem ainda uma edição rigorosa de obras, algumas acabadas e outras nem tanto, é possível experimentar a inspiração, o contexto e o desdobrar da experiência criativa”, ele diz.

“Rebento” é título original de um conjunto de esculturas feitas a partir da desconstrução de grades libertas de sua função original de proteção, apresentada anteriormente no Museu da Casa Brasileira em 2014, curadoria de Agnaldo Farias. Com o mínimo de cortes e soldas, as grades sobreviventes das demolições “turvam as fronteiras entre o funcional e o lúdico, a arte e o design, suportam plantas e com suas sombras, desenham o chão como um relógio de sol”, fala o artista. Esta série que ocupa o terraço da galeria empresta o nome ao projeto da intervenção, que consiste em uma profusão de plantas, cores, madeira, ferro, vidro, água e outros diversos materiais orgânicos e sobras industriais. A ativação do espaço com materiais vivos em sua origem ou contexto é para o artista base da trama de sensibilização do homem – um diálogo com elementos que são familiares - cativando o olhar e intensificando a experiência no “aqui e agora”.

No segundo andar, Rodrigo Bueno exibe pinturas em óleo sobre madeira onde “a pele do negro é a própria textura do suporte: a madeira recuperada” – com aproximações estéticas no raionismo de Kandinsky. Nesta pesquisa o artista trabalha alegorias e formas abstratas, imagens incompletas que sugerem uma aura indígena ou negra em instabilidade, “a magia oculta de sua presença no cotidiano”. As pinturas são inquietas não só em suas tensões sociais, mas também entre o bi e o tridimensional com suas raízes e madeiras ganhando o chão/entorno, finalizadas durante o período de ocupação.

No mesmo espaço, Rodrigo exibe “Mobília Tomada”, um dos pontos centrais do seu trabalho, um embate metafórico entre cultura x natura, fio condutor do seu estúdio Mata Adentro. As cadeiras tomadas por plantas deixam proeminente a retomada da natureza aos espaços através do tempo, uma metáfora para nosso próprio corpo ou dos objetos, revelando a impermanência de tudo e todos. Com mais de três anos de cultivo, as peças de “Mobília Tomada” vêm se desenvolvendo gradualmente, revelando momentos de curioso mimetismo e grande fragilidade entre fungos e folhagens.  “Regidas por um desejo expansivo de harmonia entre nosso conforto e a integração com o entorno, elas podem ser chamadas de sede de pertencimento, interdependência, envelhecimento, amor e amizade”, diz Bueno.

Ainda no segundo andar da galeria, o artista traz uma releitura de ícones da história da arte com a intervenção inusitada de cupins e traças. Trata-se da série “Destino Traçado”, uma pilha de livros de arte que foram corroídos por traças e cupins que invadiram uma prateleira de seu ateliê. Este ready-made acidental nas páginas dos livros foi apropriado pelo artista e ampliado no sentido metafórico, como se a própria natureza resignificasse a tradição da pintura e a história, apresentando poeticamente como tudo se transforma pela própria decomposição da imagem. As obras evocam uma nova contemplação e caminho para entender a morte como pulsão de novas formas, como uma “Vida nova” - título de sua última individual na galeria.

Já na série “Ebós”, “tais imagens revelam visões híbridas, acentuadas com fragmentos de insetos, sementes, flores, musgos, pedras, conchas e raízes. Enfim, tornam-se construções/homenagens aos nostálgicos dioramas e gabinetes de curiosidades científicas, onde a sensação é de preservação da vida neste tempo suspenso da exposição, frutos de um colecionismo de viagens e ilusões transitórias”, explica Rodrigo.

Ebós
Ebó de gaveta (Rodrigo Bueno)
Ebó é uma conjunção de elementos que evocam a harmonia ou o conflito de energias telúricas. Ao dinamizar forças, tal orquestração reverbera movimento em planos tanto sutis como densos.
Caixas, vitrines e gavetas são como invólucros de memória e reserva de linguagem, de suprimento para um futuro próximo, fragmentos de um passado associando-se ao presente, testando novos sentidos.
Gavetas recuperadas das ruas encapsulam um tempo suspenso, como um arquivo de um museu de história natural, um pequeno ambiente oculto, um gabinete de curiosidades onde uma trama de folhas e raízes, madeiras e sementes instigam a uma visão surreal. Entre asas de diversas borboletas e insetos se desdobram criaturas híbridas. Uma visão pós-apocalíptica onde outra ordem se estabelece, como uma dança intimista, ao ritmo de um renascimento que ilustra a vida em constante transformação.
Ficha técnica: Gavetas de madeira recuperada das ruas com impressões em papel de algodão de imagens de um livro de arte comido por traças e cupins. Sobre a impressão foi inserido um série de fragmentos borboletas, folhas, sementes, galhos, raízes entre outros objetos. A caixa é coberta por uma chapa de acrílico pintada com uma simulação de bolores e fungos. Articuladas por dobradiça e galhos.

http://www.mataadentro.com.br/Ebos