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Todos à Mesa

Bruno Miguel // de 11 de Outubro a 13 de Novembro

Bruno Miguel expande sua pesquisa acerca da pintura e avança em sua exploração formal e conceitual através de seu uso inovador de materiais e técnicas não-tradicionais, incluindo resina, madeira, pratos, copos, xícaras e travessas de porcelana Companhia das Índias, de uma vasta coleção adquirida em lojas de antiguidades e leilões. “Todos à Mesa”, o título da exposição, faz referência a esta coleção do artista e, também, ao chamado imperativo de sua mãe para toda família se sentar à mesa para uma refeição. A exposição reúne seu interesse na representação de experiências comuns do dia-a-dia com uma prática formal aplicada, porém muitas vezes divertida, que se inspira em sua história pessoal, em seu em torno, na cultura pop e na mídia.

No cerne da exposição está a questão da representação e do limite tênue entre o real e o representado. Reproduzindo os desenhos encontrados nos pratos que coleciona, Bruno emprega trompe l’oeil em obras como Negação (2014), como uma metáfora para a essência cada vez mais complexa da realidade e da ficção, e sobre como a informação é percebida, apresentada, representada e entendida hoje. Ele habilmente atualiza a tradição meticulosa do trompe l’oeil, ao pintar sobre porcelana e tampas de tinta seca, confundindo assim o espectador.

Para Bruno, um colecionador compulsivo, o processo de coleção e exibição de objetos e imagens, é um meio de gerar uma narrativa sobre a nossa identidade, sobre quem gostaríamos ser como povo. Como tal, é interessante notar que ele escolhe colecionar e utilizar a porcelana Companhia das Índias, que é historicamente associada ao desejo ocidental de longa data de personalizar objetos. Depois de Portugal estabelecer rotas comerciais para o Extremo Oriente no início do século XVI, os monarcas ocidentais, estadistas, famílias dominantes e outros, avidamente adquiriram porcelana chinesa. O apelo principal da porcelana foi que poderia ser desenhada a pedido. Muitas das peças ou serviços de jantar completos foram decorados com brasões de famílias, reproduções de desenhos ou gravuras enviadas para a China como referência. A Companhia das Índias é muitas vezes considerada a primeira empresa multinacional no mundo.

Esses objetos não somente trazem um toque pessoal e histórico, como também dão a Bruno uma superfície fértil e produtiva para trabalhar. Negação é uma instalação de trinta e quatro pratos pendurados em forma de X. Composta por seis pratos centrais que formam um círculo e irradiam para fora, à primeira vista, a obra parece conter muito mais do essa quantidade, uma vez que Bruno usa trompe l’oeil para criar novos pratos sobre os originais. Como um único prato é pintado em dois ou três outros, ele constrói um jogo aparente de fragmentação. Esta peça também revela o belo uso de listras como um elemento potencializador estrutural. Listras de neon amarelo, verde, rosa e laranja atravessam todos os pratos, unindo a composição. Como sua aparência elaborada e delicada sugere, a obra é o resultado de um processo manual, lento e trabalhoso desenvolvido pelo artista e seus assistentes.

O trabalho de Bruno é o resultado de um hibridismo complexo, gerado a partir de colisões estéticas e de camadas que revelam sua relação singular com materiais e imagem. Suas obras podem ser delicadamente detalhadas e virtuosas como Negação, ao mesmo tempo em que outras obras, como as da série Cozinha (2014), apresentam gestualidade e visceralidade. Essa série lida com narrativas de superfície, materialidade e processos de atelier. Aqui a aplicação delicada de pintura remetendo aos esmaltes da família rosa é usada para decorar e mimetizar “materiais não-artísticos”, tais como paletas e tampas de tinta seca, que sob sua poética se transformam em materiais e suportes. Cada espaço da superfície é preenchido e transbordado com uma atmosfera de reverência ao grafite, iluminadas por traços enérgicos de cor ou por jatos de tinta spray que reforçam anarquicamente suas próprias tensões. Além disso, o artista acrescenta uma camada redonda de resina viscosa ao vidro de proteção, remetendo à forma do prato, o que faz com que as imagens abaixo oscilem, revelando uma atmosfera de excesso barroco e espontaneidade nas soluções.

Em contraste com a série Cozinha, A história é contada pelos vencedores (2013-14) é uma série mais cerebral e conceitual. As obras apresentam uma justaposição de elementos da alta e baixa cultura que atravessam um espaço histórico conectando a estética da era colonial e contemporânea, envolvendo o espectador em um jogo metafórico. Cada caixa de madeira contém um ou dois pratos da Companhia das Índias nos quais o logotipo de uma empresa multinacional como McDonald’s, CNN, Quaker ou Marlboro foi pintado e justaposto a uma citação de autores como Victor Hugo, Friedrich Nietzsche ou George Orwell, que conferem ao trabalho uma segunda leitura que é muitas vezes satírica. Bruno, através de uma reorganização dos valores da cultura de massa e das especificidades da arte contemporânea coloca ambos os conteúdos em um mesmo patamar, trazendo um viés de leitura singular para o tema.

Em Cia. das Índias vs. Facebook (2014), por exemplo, acertadamente Bruno pinta o logotipo do Facebook e seu ícone “Like” em um prato com a representação de uma paisagem idílica, aludindo às incontáveis imagens que diariamente inundam a plataforma de mídia social, e no plano do vidro ele pinta a citação de George Orwell, “A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa”. Esse lembrete não tão sutil ressalta o poder que seus 1,2 bilhão de usuários dão a esta empresa nos dias de hoje. Por outro lado, o impacto político do Facebook não pode ser subestimado, uma vez que também ajudou a inflamar e repercutir protestos em todo o mundo, levando à sua proibição em países como China, Irã, Paquistão, Síria, Uzbequistão, Vietnã e Curdistão. A questão da liberdade de expressão é trazida à tona em Cia. das Índias vs. CNN (2014). Um banner de transmissão sobre as marchas realizadas no Rio contra a desigualdade social e os gastos do governo ligados à Copa do Mundo é pintado sobre uma cena de batalha de três guerreiros chineses, e justaposto à outra citação famosa de Orwell: “Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.”

Também inspirado por sua cidade natal, Índice para artistas viajantes – Novos capítulos – Rio de Janeiro – Outro Sentido (2013) apresenta uma sequência de reflexões sobre a cor e os percursos e deslocamentos, que fazem referência aos artistas viajantes e fotógrafos que construíram a representação da paisagem brasileira no decurso do século 19. Bruno mescla pintura degradê e foto-transfer sobre placas memoriais nestas doze obras, documentando e sintetizando a passagem e o registro de tempo, tendo uma delicada consciência de aspectos presentes na serialidade da arte minimalista. A obra oferece o que seu título sugere, um novo itinerário para os artistas que chegam ao aeroporto internacional localizado na Ilha do Governador, onde Bruno cresceu e reside, indo até a Avenida Brasil. Mas ao invés de seguir para a zona sul, que o espectador viaje pelos subúrbios, dirigindo no sentido zona norte, baixada Fluminense, área menos desenvolvida econômica e socialmente, região que abriga a maior parte das escolas de samba do Rio de Janeiro, berço cultural de importantes valores populares da cidade; uma jornada urbana que inspirou a paleta tropical e metálica da série.

Bruno abandona as imagens, porém mantém a paleta intensa e o degradê na série Ceci n’est pas une peinture (2014), onde ele emprega a tela como um material maleável que é transformado pelos objetos de porcelana que se acomodam em seu interior. Bruno questiona a noção de pintura ao alterar radicalmente a estrutura da superfície, lembrando o conceito de “objeto específico” de Donald Judd, onde uma obra de arte não é nem pintura nem escultura, mas algo além dos limites dessas categorias existentes. Miguel explora os efeitos da percepção, com a interação de duas cores puras e radiantes que sangram uma na outra para produzir efeitos de modulação e variação tonal, ampliados pela profundidade gerada pela construção incomum das obras.

Uma variação divertida é encontrada em Cafezinho? (2014), uma série de “pinturas” que poderiam ser lidas como mini-monocromos ou, juntas, como uma cartela de cores bebível. Para criá-las, Bruno encheu xícaras cinzas vintage de café com um único pigmento misturado com resina, condensando e solidificando as cores usadas nas outras obras da exposição. Bruno não é o primeiro artista a introduzir objetos domésticos ou a energia da vida urbana em suas obras. Ele dá continuidade a uma prática do século XX onde a arte e a cultura popular se alimentam uma da outra. Começando com a introdução de jornais parisienses, cartas de baralho, garrafas de vinho e outros artefatos do atelier nas colagens de Picasso e Braque, com a apropriação por Lichtenstein de imagens de histórias em quadrinhos para suas pinturas, ou as colagens de cartazes dos “affichistes” parisienses Jacques Villeglé e Mimmo Rotella, continuando com outros artistas conscientes da cultura popular como Asger Jorn, Sigmar Polke, David Salle e Julian Schnabel, os quais, assim como Bruno, também relacionam com naturalidade a vida cotidiana na pesquisa artística. Esse aspecto aparece em Quebra-cabeça (2014), que consiste em todos os pedaços de um prato quebrado, reunidos com uma camada protetora de resina. A peça projeta uma nostalgia refinada e evoca a famosa tradição de Sèvres de quebrar pratos que não são absolutamente perfeitos. O fato de que depois de quebrado foi reconstruído revela a crença de Bruno de que os objetos carregam a memória do vivido.

Em “Todos à Mesa” Bruno desenvolve a pintura tanto formal como conceitualmente, e lida com mais paixões do que se poderia esperar. Durante sua curta carreira já fica claro pela pluralidade de seu trabalho que ele foge à ideia de “estilo” e da previsibilidade. Este artista que coleciona tudo, desde garrafas de Coca-Cola e coisas vintage como Muppet Babies, até bichos cinéticos de Abraham Palatnik, trata seu colecionismo e suas obras como um elo com o passado, sempre confrontando o presente de maneira sagaz.

Monica Espinel