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Theo Firmo | Meio Fim | abertura 26 de novembro

Se houvesse uma palavra, ou uma ideia, sobre a qual todos estivéssemos de acordo, essa palavra-ideia deixaria de existir. Por sua onipresença, morreria.    A linguagem, o mundo das palavras e das ideias, se baseia na cópia e na repetição de modelos, no consenso da aceitação dos significados e também na aceitação calada de suas falhas. Em linguística, essa repetição se chama iterabilidade, e nos fala da capacidade e da necessidade de um signo de repetir-se para existir e construir significado. Um gesto, um meme, uma palavra, precisa se reconstruir e se recontextualizar de maneira contínua para não perder seu sentido, um sentido que nunca chega a construir-se por completo e, portanto, nunca é corretamente transportado.

    Se houvesse uma palavra, ou uma ideia, sobre a qual todos estivéssemos de acordo, essa palavra-ideia deixaria de existir. Por nossa vontade, morreria.

    Entre os dois lados de uma conversa, sempre há um abismo potencial, o espaço onde recaem todas as coisas que não chegaram lá. Do meu discurso ao seu ouvido, do seu poema aos meus olhos, a perda é fundamental, e aquilo que a palavra perde até chegar no outro é o que a mantém viva. O fracasso é a condição para a existência de um símbolo: é sua força motriz e sua lei de surgimento. Esse espaço – do desentendido, do malentendido, do perdido, do não enxergado – estabelece as distâncias e, com isso, nos impele a continuar tentando aproximar.

    Se houvesse uma palavra, ou uma ideia, sobre a qual todos estivéssemos de acordo, essa palavra-ideia deixaria de existir. Por simetria nossa, morreria.

    Ao escrever este texto, registro aquilo que desejo fazer entender. Registro aquilo que desejo. Registro desejo. Quem se encarrega, então, de registrar a perda não desejada, de eternizá-la? Pois o espaço da perda, ignorado, não é um espaço vazio, mas terra fértil e vasta, espaço de outros encontros.                                                                    (Theo Firmo)

De 26 de novembro a 09 de janeiro de 2016 a galeria Emma Thomas apresenta a exposição “Meio Fim” do artista Theo Firmo. O eixo central da exposição são oito obras de desenho produzidas a partir da incisão sobre pedras, apresentadas em uma instalação. Neste trabalho, Theo reflete sobre a ideia de perda e ausência, tanto na linguagem como nas relações, tema já presente em seus trabalhos anteriores. Para Firmo, a comunicação depende sempre do desentendimento, “um abismo potencial, o espaço onde recaem todas as coisas que não se puderam fazer entender”.

Para atentar a esse espaço entre uma mensagem e o receptor e vice versa, o artista mostra uma série de gestos que se aproximam de um balbuceio, uma expressão irrepetível que nasce e morre ao mesmo tempo. “É o elemento mais sincero, claro e responsável da língua”, ele diz.

O título da exposição faz referência ao que a comunicação e a morte têm em comum, deixando de lado o desejo e o princípio. “Na escrita, se registra aquilo que se deseja comunicar, mas quem registra o que se perde, o que não se entende?”, reflete o artista.

Os desenhos que compõem a instalação de “Meio Fim” são essencialmente emocionais e espontâneos e, realizados sobre superfícies de mármore, levam à ideia de eternidade. A escolha do material faz referência tanto às lápides de túmulos quanto a fósseis minerais, ressaltando a ideia de um registro da perda.

Sobre Theo Firmo

Nasceu em São Paulo, 1983. Vive e trabalha em Madrí, Espanha. Realizou estudos universitários em linguística e semiótica. Sua obra consiste fundamentalmente em desenho, apesar de possuir trabalhos de vídeo que se mostraram em numerosos festivais em todo o mundo. A narração se estabelece como o núcleo central, fruto de um processo de investigação que parte de um estudo da linguagem e dos processos comunicativos. Seu desenho com frequência tem como objetivo a instalação, e conta com um forte carácter táctil. Vive e trabalha entre São Paulo e Madrí.