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TERRA | Individual Gui Mohallem | Curadoria Gabriel Bogossian

“Se partires um dia rumo a Ítaca

faz votos que o caminho seja longo”

“Ítaca”, Konstantinos Kaváfis

“Ítaca”, o poema de Kaváfis citado acima, exorta o leitor a desejar uma viagem longa, repleta de descobertas. Trata-se de uma viagem de regresso: Ítaca é a cidade natal de Ulisses, para onde, ao longo da Odisseia, ele tenta retornar. Abençoada e amaldiçoada ao mesmo tempo, a jornada dá o sentido da narrativa; nela, o lugar de origem permanece como norte, promessa constantemente atualizada, mas sempre por cumprir.

A exposição Terra, de Gui Mohallem, parte desse mesmo princípio: é a viagem que guarda o significado da terra natal. Diferente das séries anteriores do artista, produzidas durante viagens para lugares específicos, o conjunto de fotos e vídeos exibidos aqui tem origem em contextos distintos. São obras que já não anunciam a descoberta de um lugar sagrado; não se trata mais da busca por um lugar de pertencimento – uma terra prometida. Estas paisagens surgem, ao contrário, de uma crise do território, ao mesmo tempo pessoal e política. São a terra que temos, fragmentos da busca pelos nossos lugares – de origem, de destino – insistentemente perseguidos.

A escultura no meio do espaço é o elemento central de toda a exposição. Com forte carga negativa – pois trata-se de um volume retirado da terra, que deixa atrás de si uma cova vazia – é, ao mesmo tempo, resultado de um grande esforço construtivo, como um monumento à terra natal. Em torno dessa espécie de negatividade positiva giram as outras obras exibidas em Terra: elas trazem o olhar de alguém sobre seu passado, mas evocam também uma promessa obscura, como se algo estivesse na iminência de se revelar. E aqui, neste tempo ambíguo, aguardamos a chegada da tempestade.

No dia 13 de agosto, quinta-feira, às 18h, a galeria Emma Thomas abre a exposição “Terra”, individual de Gui Mohallem com curadoria de Gabriel Bogossian, na qual o artista apresenta três vídeos, 16 fotografias e uma escultura que ocupa todo o centro da galeria, escala inédita em seu trabalho. A mostra fica em cartaz até o dia 26 de setembro, com entrada livre e gratuita.

Em seus trabalhos anteriores – “Welcome Home” e “Tcharafna” –, Gui Mohallem fotografou lugares distantes de seu dia-a-dia, como um santuário pagão nos Estados Unidos ou o Líbano, país de origem de sua família. Já em “Terra”, o artista explora um contexto mais filosófico - o deslocamento, desta vez, é mais forte para dentro. 

O título da exposição faz referência aos dois sentidos da palavra “terra”, que pode significar tanto o planeta quanto o chão, o lugar de nascença e de pertencimento. Nesta mostra, o artista busca trazer ao público a experiência da natureza que apequena e abarca, simultaneamente, e de forma arrebatadora. E é o que fica claro com as dimensões da escultura que ocupa o vão central. 

“Essa peça é continuidade de uma pesquisa com objetos que iniciei em 2013 e que teve como ponto alto um cubo de parafina vermelha que apresentei em uma exposição no Rio. Agora, estou investigando novos materiais e refletindo sobre essa forma em uma escala maior”, conta Mohallem. 

“Ao primeiro olhar, a exposição ‘Terra’ trata somente de paisagens: amplos panoramas, cidades, montanhas, florestas. A calma que prevalece em todas as imagens, contudo, não deixa de evocar uma ameaça de que algo oculto ressurja e que a tempestade (ou o céu, como dizem os Yanomami) desabe sobre nossas cabeças. São paisagens, portanto, que vêm de uma crise do território, ao mesmo tempo pessoal e política; fragmentos da busca pelos nossos lugares – de origem, de destino –, que insistentemente perseguimos”, diz o curador Gabriel Bogossian. 

Abertura: 13 de agosto, quinta-feira, das 18h às 22h
Período expositivo: 14 de agosto a 26 de setembro

“As you set out for Ithaka

hope the voyage is a long one”

“Ithaka”, Constantine Cavafy

“Ithaka”, the aforementioned poem of Cavafy, urges the reader to wish for a long journey, filled with discoveries. It is a homebound voyage: Ithaka is the birthplace of Odysseus, to where he tries to return all the way through the Odyssey. Equally blessed and cursed, his journey gives meaning to the narrative; the place of origin stays as a north, a constantly updated promise yet always to be accomplished.

Earth, the exhibition by Gui Mohallem, departs from this very same principle: to travel is what preserves the meaning of the native land. Unlike the artist’s previous series, produced on the context of journeys to specific places, the set of photographs and videos here exhibited stem from different circumstances. They are pieces that do not herald the discovery of a sacred place; it is no longer a matter of looking for the place where one belongs, a sort of Promised Land. The landscapes rise rather from a crisis of the territory, simultaneously of personal and political character. They are the earth we can hold on to, insistently pursued fragments of the quest for our places – of origin, of destination.

The sculpture right in the middle of the space is the key element of the whole exhibition. Bearing a strong negative aspect – since it is a mass withdrawn from the earth, thus leaving behind an empty grave – it is, at the same time, the result of a major constructive endeavor, some sort of monument to the hometown. Surrounding this form of positive negativity, revolve the other works shown in Earth: they convey the regard of someone over his past, but also evoke a dismal promise, as if something was about to be revealed. And here, in this ambiguous field, we expect the arrival of the storm.