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Sara Não Tem Nome na residência Red Bull Station & Textos

Sara Não tem Nome participou da residência artística Red Bull Station - com curadoria de Fernando Velazques. Desenvolveu durante o programa seu primeiro disco, que está agora em fase de finalização e será lançado ainda este ano. 

Sara também participará, sem data prevista, do projeto de exposição premiado este ano pelo Marcantônio Vilaça: com curadoria de Raphael Fonseca a exposição "quando o tempo aperta" tem origem no projeto "Riposatevi", feito por Lucio Costa para a XIII Trienal de Milão, em 1964. na exposição estarão presentes, além dele, Hélio Oiticica, Pierre Verger, Adriano Costa,Ana Maria Tavares, André Komatsu + Marcelo Cidade, Gabriela MurebLais Myrrha, Leandra Espírito Santo, Raquel Stolf, Rochelle Costie Sara Não Tem Nome.

Textos sobre a artista:

“Sara não tem nome” é o nome artístico de Sara Alves Braga, mineira de Contagem, nascida em 1992. Sara olha o mundo com um filtro particular: ela parece navegar a realidade em busca daqueles intervalos de inconsistência lógica que nos passam desapercebidos no dia a dia – ou aos que deliberadamente damos credibilidade temporária, para lidar com o mundo de forma mais amena. Sara explora seus insights construindo narrativas desde a fotografia, o vídeo, o livro de artista, a performance e a canção. 

Fernando Velasquez

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Nas suas performances, ações fotografadas ou filmadas, Sara Não Tem Nome interpreta canções de sua autoria ou protagoniza anedotas insólitas que ela mesma compõe a partir de objetos e acontecimentos do cotidiano. Com tom intimista e uma forte componente autobiográfica, a artista imprime o seu olhar singular e curioso sobre o mundo, no qual o real é permeado de elementos da esfera da imaginação, repleto de associações inusitadas por trás das situações mais corriqueiras e banais.

Na mostra, a artista apresenta três polípticos de fotografias que tecem micronarrativas insólitas em primeira pessoa. Todas apresentam características próprias da poética da artista: sensíveis, bem-humoradas sem deixar de transparecer certa ironia e autoderrisão. Em Andar de Cima a artista se dirige em direção de uma “escada para o céu” na área de estacionamento de um aeroporto, antes de ser interceptada por um guarda. As diferentes fotos de Santa Eufemia sugerem um movimento de zoom em uma caçamba na qual a artista está deitada em um colchão enquanto passantes caminham pela calçada. Por fim, ao avistar um homem-cartaz de uma loja de colchões em Conforto, a artista aproxima-se e deita-se junto a ele.

Olivia Ardui em Texto para o catálogo do prêmio EDP das artes 2014

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A artista que Não Tem Nome é uma inventora

E me diz assim: “Hoje eu esqueci de acordar; Me perdi no tempo indo para a escola; Eu vi um cachorro comendo um olho de um boi no café da manhã; Dizem que Darwin diz que é a lei da seleção natural; Dizem que a origem da vida vem da sopa, do caldo Knorr; Dizem que a origem da vida vem da sopa caldo Knorr; Andam dizendo demais e não prestam atenção no chão; Andam dizendo demais e não prestam... É tanta pressão de mutação...  Sou uma transgente; Matemática orgânica; ou desumana; Sou tão visceral...

Você é a estrela mais brilhante da minha constelação; Quero ver você a todo instante; Quando estamos juntos perco a razão; Onde você for eu vou também; Em todas as línguas eu quero dizer o quanto eu gosto de você...

Existem artistas que transformam o seu viver em arte. Eles reinventam e inventam a arte. Mas poucos conseguem transcender ao misturar vida e arte.  São divagantes por natureza os seres poetas. Poesia que não se dá sobre o papel ou a arte que não se materializa em uma pintura ou não se conforma em uma escultura. Tampouco sobre o papel. Há arte que não dá em forma nenhuma. Em nenhuma cor.

Tudo isto está ai para os nossos olhos. Está na própria vivência. Em uma vivência artística. No próprio corpo do artista. A arte estaria na arte de viver.

Pode parecer pouco apenas divagar nos pensamentos. Ser também um pouco artista ao escrever este texto aparentemente sem sentido. Pode parecer um truque por não ter o que escrever diante da própria arte. Da verdadeira arte. Mas, mais do que apresentar um desenho, uma obra em si, material ou conceitual, pode não dar em nada. Ou pode dar sim em algo.

Apenas cantar e tocar um instrumento musical, pode ser sim a obra de um artista.

Sara Não tem Nome, é dessas artistas que nasceram artistas. Não precisa se formar artista. A vida acadêmica é apenas uma condição imposta mas não necessária para ser a artista. Artista tem que inventar, tem carregar no seu ser a condição artística.

Comecei a escrever este texto ouvindo as músicas da artista Sara Não Tem Nome e transcrevendo para o meu texto as letras das músicas que ouvia. Mas houve aqui uma simbiose e não sei onde parei e comecei a escrever o meu próprio texto. Houve uma simbiose artística aqui.

Ao me deparar com os vídeos da artista na seleção do Bolsa Pampulha eles me “pegaram”. A comissão parou de falar e todos ficaram silenciosos diante do que se via e ouvia. Nos tocou de forma profunda e foi unanimidade a sua seleção ao surgir já no final do processo seletivo.

O vídeo mais contundente é o da  sua avó conversando com fotografias do seu neto ainda bebê.

A velha senhora dava vida às fotos. Dava vida ao bebe quando levava comida à sua boca. Arrancou lágrimas ao nos expor o inexorável da vida. A velhice e a loucura que pode nos acometer diante do inexorável da solidão que significa envelhecer.

É a ilusão o que nos mantém vivos no mundo. A ilusão deve ser mantida com graça.

Ricardo Resende

The artist who Has No Name is an inventor

And so it says: “Today I forgot to wake up; I lost myself in time going to school; I saw a dog eating a bull's eye for breakfast; They say Darwin says it's the law of natural selection; They say that the origin of life is the soup from Caldo Knorr; They've been saying too much and pay no attention to the ground; They've been saying too much and pay no attention... It's so much pressure for mutation... I'm a transperson; Organic mathematics; or inhumane; I'm so visceral...

You're the brightest star of my constellation; I want to see you every moment; When we are together I lose reason; Where you go I'll go too; In every language I want to say how much I like you...”

There are artists who transform their lives in art. They reinvent and invent art. But there are few who manage to transcend when mixing art and life. These poetic beings are wanderers by nature. Poetry that doesn't happen in paper or art which doesn't materialize in a painting or doesn't become a sculpture. Not even on paper. There is art which doesn't become any shape. Any color.

Everything is available for our eyes, is intrinsic to our own living. In an artistic living. In the artist's body. Art might be in the art of living.

It may seem little to wander only in thoughts. To also be an artist when writing this apparently nonsensical text. It may seem like a trick for having nothing to write when facing the art itself. The true art. However, more than presenting a drawing, a work of art, material or conceptual, it can lead to nothing. Or it can lead to something.

Just to sing or play a musical instrument can be the work of an artist.

Sara Não Tem Nome is one of those artists who were born artists. They don't need to graduate as artists. The academic life is simply an imposed condition which is not necessary to be an artist. The artist must create, must carry in its own being the artistic condition.

I begun writing this text by listening to Sara Não Tem Nome's songs and transcribing their lyrics. But then a symbiosis happened and I don't recall when I stopped this procedure and started writing my own text. An artistic symbiosis happened here.

When facing the artist's videos for the selective process of Bolsa Pampulha they “got” me. The jury stopped talking and everyone became silent in face of what was seen and heard. The videos touched us in a profound way and Sara's selection, when her portfolio was revealed at the end of the selective process, was a unanimous decision.

The most relevant video from that day is the one that shows her grandmother talking to photographs of her grandson when he was still a baby.

The old lady gave life to the photographs. She gave life to the baby when she nurtured him. Tears were shed for we were exposed to the mortality of life. The old age and the madness that can affect us in face of the ruthless solitude that becoming old means.

It's the illusion that keeps us alive in the world. The illusion must be kept with grace.

Ricardo Resende