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Salve!

Marcelo Cipis // de 14 de Junho a 12 de Julho 

Um artista dividido

Salve!, exposição de Marcelo Cipis na galeria Emma Thomas, é composta pela inquieta produção última do artista, que se retrata – movediço por trás do riso narcísico e escancarado feito embalagem – dissimulado no olhar do outro. Ao entrar, o espectador é recebido com um Salve!, interjeição de saudação de orquestrada simpatia, que o introduz à superfície do artista. Ali Cipis revela seu nome, marca e ambição numa versão externalizada de si, que lida com seus anseios e fobias com deliberada graça. E sua ironia é perpetuada.

Belas são as artes, seus atores, autores e transmissores. Salve as grandes instituições, o academicismo e a rebeldia.

Esta reverência introdutória funciona como uma espécie de escudo promocional do artista que se exibe jubiloso, índio de cartola. Evoé, evocai nossos artistas, nossa arte, roga. E comercializa seu nome sem reticências.

Num segundo momento, o visitante se depara com outra versão do mesmo artista, aquela que expunha uma fartura de elogios em relação ao domínio da arte, agora se encerra de forma subcutânea no terreno íntimo e caótico do autor.

Exposto às análises e olhares do outro, Marcelo se revela desnudo e se oferece como alvo e utensílio de seu espectador e consumidor. Este, por sua vez, percorre inadvertidamente o espaço recôndito do artista, fundindo-se a seus argumentos e, quase sem culpa, penetra em sua espiral de inquietação.

Na série “Retratos de um artista”, Cipis declara a ausência de saídas, e seu combate íntimo, espremido por um duro vermelho de vísceras, é exibido sem intermediários. A confusão culmina na forma de seu próprio processo: “316 desenhos lacrados, retrato de um artista dividido”.

E aquele Salve! acolhedor se converte em labirinto e, absorto, clama por auxílio: Salve!

Curadoria

Joana Barossi