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Refresh: Estou Ciente e Quero Continuar

Peter de Brito // de 14 de março a 13 de abril de 2013

“Refresh: estou ciente e quero continuar”, de Peter de Brito

Há uma distinção convencional entre erotismo e pornografia, da qual mesmo

pensadores elevados como Roland Barthes não souberam escapar. Distinção que atribuiu à natureza da fotografia os males da pornografia contemporânea. Barthes expôs isso no livro, no célebre livro chamado A câmara clara, La chambre claire, na qual ele diz: “A foto me induz a distinguir o desejo pesado, o da pornografia, do desejo leve, do desejo bom, o do erotismo” (“la photo m’induit à distinguer le désir lourd, celui de la pornographie, du désir léger, du désir bon, celui  de l’érotisme.”). O erotismo é muito bom, a pornografia, que nojo!

Por que um intelectual como Barthes, não apenas homossexual, mas compulsivamente sexual, escolhe uma perspectiva tão banal, convencional e moralista? Porque o peso do conservadorismo repressor é por vezes mais forte do que a inteligência.

Mais ainda: a distinção entre erotismo e pornografia é mesmo necessária? Diante da fórmula de Barthes, mas que é possível ouvir também em qualquer conversa “educada”, uma paráfrase feita sobre outra frase, desta vez de Alain Robbe -Grillet, vem à mente, bem tentadora: “o desejo pesado é, naturalmente, o desejo dos outros”. Ou seja, a pornografia é o desejo dos outros. Se o desejo pesado é o desejo dos outros, o nosso desejo, esse, é sempre bom, será sempre bom. A pornografia é menos um conceito do que um insulto e um preconceito.

No mundo interminável dos desejos intensos que é a internet, as imagens licenciosas são infinitas. Trata-se de desejos inefáveis, intangíveis, virtuais, palavra de bela etimologia: vem do latim virtus que, também, dá origem numa gênese paradoxal a “virtude”. Ou seja, existem apenas em potência e não em ato, como o sonho e não como realidade. São imagens que alimentam e se alimentam dos desejos humanos, exatamente como as obras de arte. Se tivermos mesmo que situar a pornografia num campo conceitual, esse deve localizar-se no da moral e não no da estética ou da arte. E no caso da arte, imagens “elevadas” ou “baixas”, nobres ou vulgares podem se corresponder e se iluminarem mutuamente.

Lembremos que a pornografia é o grande objetivo de consultas da internet. Pelo que eu pude ler, apenas em uma ocasião a pornografia foi suplantada por outro interesse. Essa ocasião ocorreu no dia 11 de setembro de 2001. Foi o único dia, no qual os usuários da internet se interessaram mais por um acontecimento trágico, dramático, do que pela pornografia. Lembremos que o mundo contemporâneo é altamente conservador. Depois dos anos de 1970, que foram liberadores, a questão do sexo voltou, hoje, à tona, acompanhada por processos de repressão, os mais fortes e os mais violentos, liderados por todas as religiões.

A pornografia abre uma fenda nesse processo de conservadorismo atual. Ela aponta diretamente para a nudez do desejo, essa nudez que, esperemos, termine se revelando plenamente, banalizando-se e sendo vista sem pose hipócrita, ou religiosa, ou disfarçada. Devemos assumir o fato objetivo de que o interesse primordial da humanidade em termos de imagens imaginárias é quantitativamente voltado para aquilo que muita gente chama de pornografia, a internet é o testemunho. Ao invés de pensarmos tal fato de um ponto de vista moral, como algo de ruim para a humanidade, lembremos que a pornografia na internet é um instrumento revelador do desejo imediato e, mais nós ocultamos esse desejo, mais esse desejo se exacerba. Ela é, portanto, subversiva em relação aos comportamentos conservadores e moralistas. Se de um ponto de vista otimista, eu perceber o futuro, nesse futuro a ideia de pornografia desaparecerá em benefício da existência manifesta de todas as formas de prazer situadas no campo do imaginário. Ao infiltrarem-se na arte, as imagens ditas obscenas põem em cheque a distinção entre o pornográfico e o artístico, demonstrando que a pornografia não é noção nem artística, nem estética, mas apenas moral. Não é fácil, hoje, encontrar um caminho subversivo para as expressões artísticas. Peter de Brito ao centrar-se nesse tema, escolhe um campo de poderosa irreverência e abalo cultural.

Mas não se trata apenas de uma escolha. Ocorre que essas obras possuem uma misteriosa densidade erótica para além da pura figuração. A tal ponto que, ao passar das obras explícitas para imagens tão inocentes quanto uma cabeça de cachorro ou um doce, estas inocências resultam “contaminadas” pela perturbação desejante que se instaura no espírito (e no corpo) do espectador. São os mistérios da arte, provocando em nós desordens sensoriais altamente salutares.

 

 Jorge Coli

(historiador e crítico de arte)