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Quase Sombra

Alexandre Brandão // de 08 de setembro a 14 de outubro de 2012

Alexandre Brandão, Quase Sombra // Organização e texto: Fernando Oliva

As escolhas recentes de Alexandre Brandão parecem apontar para direção oposta à do comentário – seja sobre a arquitetura, o display, o circuito, o espaço expositivo como medium e outras possibilidades abertas ou retomadas pela arte contemporânea. Obras como  Vazante e Cubo Negro falam abertamente sobre seus próprios modos de existir e de funcionar. Transparentes em seus objetivos, buscam evidenciar para o espectador onde se encontram e seus mecanismos de auto-elucidação.

O que nos leva a supor que os pontos de contato mais produtivos com a obra de Brandão possam estar em outro lugar, talvez não onde estejamos procurando neste momento. Contraluz e Fantasma são parte deste dilema, e como outras tem por qualidade se mostrar ainda incompletas, instáveis – o que as diferencia e particulariza em relação a grande parte da produção atual.

De resto, seria falso e incoerente se apresentar de outro modo diante do espectador. O estranhamento que carregam parece vir justamente do fato de estarem sempre aquém, ou além – tanto em relação a elas mesmas como do que se espera delas neste contexto. Portanto são corajosas para frustar parte das expectativas, desviar da zona de conforto e, para seu próprio bem, poder ainda correr alguns riscos antes de se decidirem para onde ir nestes pântanos.

Se fizermos o exercício de inverter as estruturas de poder e a hierarquia a que nos habituamos, podemos nos perguntar se a insegurança e as dúvidas estariam não nos trabalhos, mas em nós, quem já olhamos a partir de um repertório e rigor de especialistas, contaminados por toda a déformation professionelle que isso carrega. E se, apenas como um exercício, decidíssemos contornar relações de causa e efeito mais convencionais com que, por tédio ou preguiça, nos habituamos a raciocinar?

Em Contraluz, por exemplo, no lugar de simplesmente afirmar que o refletor é o responsável pela construção da imagem na parede, poderíamos pensar em sentido oposto, que o círculo de “luz negra”, envolto em seu halo de luz, deu origem ao objeto – como uma espécie de concessão ao entendimento do espectador, já que, por ser uma imagem ancestral e icônica, tem certa autonomia para existir sem depender de relações elementares de emissão-recepção.

É fundamental apontar que esta decisão em particular do artista é emblemática deste conjunto de trabalhos aqui exposto, informado em grande medida pelo desenho –não exatamente por sua linguagem e gramática, mas sim por seus mecanismos e estratégias de construção e permanência, seu discurso e seu “partido”.

Deste modo, a aparência instável, de croqui, que perpassa esta individual, pode ser associada à este período formativo e seu vocabulário, historicamente o medium em que diversas noções fundamentais para a arte contemporânea ganharam lugar discursivo e teórico, especialmente a partir dos anos 1960. Dentre elas, a mais evidente é a escolha por valorizar o processo, dar uma forma para a possibilidade da tentativa e erro, atuar no interior do pêndulo construção/construção. Por sua própria natureza, o desenho é o lugar do rascunho e da experimentação. É justamente nas bases desta linguagem que o artista encontra as estratégias que contornam a excessiva teatralização destas peças e do espaço que elas determinam juntas.

São Paulo, setembro de 2012 // www.emmathomas.com.br