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PASSAGEM PAISAGEM | Mostra Coletiva parceria CasaNovaArte

colaA galeria volta às suas origens como celeiro de talentos nacionais e inaugura no dia 04 de abril uma coletiva com cinco jovens artistas da cena nacional, com curadoria de Adriano Casanova e Emma Thomas. O título da mostra é homônimo a obra do artista Bruno Rios que estará na fachada da galeria como um Zeitgeist desta produção. As obras apresentam reflexões sócio-políticas não militantes ou panfletárias, mas não menos potentes em mensagens afinadas com o “agora”, utilizando os atuais recursos de ressignificação do entorno, poéticas reais-ficcionais e seus desdobramentos subliminares, cada um à sua individualidade.

São trabalhos de aparente instabilidade frente a suas organizações espaciais, econômicas, emocionais ou mentais, numa tentativa involuntária de reestruturar o mundo ou inverter alguma ordem.

Estas forças de atração e repulsão banais ou tradicionais unem as pesquisas ora apresentadas, sem um juízo de valor que as hierarquize – em uma assimilação irônica e por vezes até científica do esvaziamento existencial ou ético do cotidiano. Há um estado contemplativo niilista ou uma revelação das falhas que se apresenta como a grande potência deste conjunto. Como se estas perguntas não fossem mesmo ser respondidas e a intenção mais genuína pudesse naturalmente ser absorvida por circuitos, redes sociais, vernissages ou qualquer outra mecânica viciada. Nada parece imponente frente à massiva e superficial avalanche imagética contemporânea, o mundo real e virtual em constante esgotamento e esquizofrenia.

Sara Não Tem Nome vivencia a realidade como a mais profunda metáfora, catalogando suas ações performáticas experimentais em fotografia e música. Apropria-se de símbolos visuais e da autoimagem com teatralidade para exteriorizar seu contato com as esferas mais sutis do universo periférico ao ideal publicitário. Também brinca com a questão do gênero e as simbioses corpo-objeto, em estranhas e belas proposições. “Sara olha o mundo com um filtro particular: ela parece navegar a realidade em busca daqueles intervalos de inconsistência lógica que nos passam despercebidos no dia a dia – ou aos que deliberadamente damos credibilidade temporária, para lidar com o mundo de forma mais amena”, segundo Fernando Velasquez.

Victor Leguy opera as falhas e a memória rasurada a partir do ponto de vista dos descartados ou anônimos, ativando os próprios lugares de imersão como gatilho de sua arqueologia cultural. A investigação tem como suporte principal o desenho e a coleta de experiências alheias para re-historificar os locais através da tradição oral e imaterial. Segundo Victor: “Me parece interessante como alguns elementos das estórias se apresentam constantemente e a cada vez, um ínfimo detalhe que não estava lá no primeiro olhar altera profundamente o curso do que vem a seguir, reposiciona informações de forma definitiva. Dentro de um trajeto no tempo, a eminência daquela espécie de “bagagem” impregna as experiências a serem conectadas e energizadas”.

A partir da utilização de materiais como papel, madeira e palha, Hugo Frasa apresenta na série .d.e.r.i.v.a. um ideário incerto e sem rumo, segundo o próprio artista. São deslocamentos territoriais como se continentes ou placas se reagrupassem e então se reorganizassem, numa experimentação intuitiva das teorias da “geometria sensível”. As monocromáticas composições se aventuram a entender se a soma das partes é diferente da interação das mesmas e em que sentido o “Todo”, caminha em uma mesma direção mesmo sem conexões eventuais. Hugo tem forte influência da produção dos 60 e 70 nacionais, mas opera sem expectativas ou ambições através de seus esquemas, a matemática lúdica das dificuldades nos relacionamentos interpessoais.

Bruno Rios ao olhar para o mundo inspeciona e configura jogos poéticos a fim de mensurar e apontar possíveis caminhos na estruturação da paisagem. Inverter escalas topográficas, fragilizar o tempo a partir de palavras ou medir o corpo através de algo não palpável são algumas estratégias usadas pelo artista ao tentar coletar dados de uma contemporaneidade que conforma paisagens superpostas e deslocamentos territoriais. A vulnerabilidade das coisas ao nosso redor é comprovada pela manipulação simples do mundo, por ações pontuais propostas nos trabalhos apresentados, instabilizando sistemas e lógicas cotidianas.

Pedro Maia sublima e transcende - através de teorias poéticas que circunscrevem sua obra - as dificuldades e possibilidades de aprendizado e adaptação ao lidar com suas próprias escolhas e com as escolhas externas do entorno. Relacionando-se com os objetos, como se estes não fossem separados dele mesmo - os limites físicos entre o corpo e o meio não existem - o artista constrói na galeria um engenhoso condutor de água com tubulações que conectam os três andares do prédio. Através da circulação de um trânsito material, de cima a baixo do prédio, cria um percurso nesse terreno que pode ser visto desde o térreo até a abertura da laje para o céu aberto. Existe na concepção e execução da instalação o fazer semelhante ao de um alquimista, onde se percebe a administração e a aplicação de certas leis não lógicas aos elementos por ele encontrados, por outros descartados ou coletivamente confeccionados.