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Panorama Imaginista

ERICA FERRARI // De de 1 outubro a 5 novembro de 2011

Panorama, um artifício natural

A prática de codificar e reconfigurar o real em espaços cibernéticos é mecanismo recorrente nos últimos tempos. E ainda que a catalogação da paisagem não seja mérito exclusivo da realidade virtual, é fato que por meio de seus aparatos tecnológicos tornou-se possível transpassar limites geográficos em instantes e minuciosamente transitar por diversos espaços panorâmicos em tempo real. A adesão massiva a essa ferramenta, permite inclusive aproximá-la ao pensamento exposto no século XVI por Claudio Tolomei no que tange à noção de natureza artificial e artifícios naturais. De fato, ancorado nesse duplo oximoro cunhado por Tolomei, Philippe Codognet elenca especificidades da realidade virtual, percebendo correlações com as novas mídias, suas comunidades virtuais e o modo de apreensão do real por meio de mecanismos de navegação em três dimensões1. Isso porque em seu estudo de caso, Tolomei utiliza esses termos para qualificar jardins maneiristas compostos por vegetações e construções as mais variadas, vinculando ideias antagônicas à necessidade que o homem manifesta há séculos quando busca estruturar o que o circunda.

À guisa de introdução, vale notar que ‘Panorama Imaginista’, instalação de Erica Ferrari, repousa sobre conceitos de mesma natureza ambígua. Ainda assim, o caráter ambíguo presente em sua obra não nos reporta às falácias comumente encontradas em retórica ou linguística. Ao contrário, trata-se de um terreno fértil em poéticas visuais2, onde a artista exercita o experimental, investigando os limites sensoriais do público em confronto com o real e suas representações. Tudo isso sem manter compromisso com as especificidades de cada categoria artística e muito menos com precisões científicas ou verossímeis. De fato, tendo herdado a autonomia reivindicada por movimentos vanguardistas, a produção simbólica contemporânea manipula o insólito com o rigor de um catedrático, ao mesmo tempo em que atribui a objetos manufaturados e ao espectador o estatuto de obra de arte.

No caso de ‘Panorama Imaginista’, a confluência dos termos que dão título à obra reforça sua condição ambígua, permitindo que a artista singularize referências incongruentes, encontradas em períodos distintos da história da arte. Isso porque o panorama é um dispositivo que se impõe como gênero pictórico na tentativa de exibir o registro da realidade de modo ilusionista, em rotundas arquitetônicas de aproximadamente três andares. Trata-se de um fragmento expandido da paisagem não capturada por nosso campo visual, apresentado com a intenção de atingir a maior exatidão possível3. Ele é apresentado como tal pela primeira vez no final do século XVIII, quando o artista Robert Barker decidiu exibir sua série de pinturas da cidade de Edimburgo, inserindo o espectador ao centro da realidade representada, eliminando-lhe assim toda influência externa. Já imaginista é a qualificação de um movimento vanguardista que surge na Europa em 1953, fundindo-se anos depois no Internationale Situationniste. Associado à tentativa de alguns artistas em dar vazão à intrincada relação de poder entre arte e indústria, o Mouvement International pour un Bauhaus Imaginiste, com grande interesse político-revolucionário, resgata valores fundadores do momento em que essa escola vanguardista era situada em Weimar, privilegiando o caráter transdisciplinar e experimental da arte. Para eles, o estatuto da arte incidiria détournements no instituído, revelando e subvertendo situações improváveis, decorrentes do processo de hibridização entre o homem e suas invenções maquinarias.

Por sua vez, em ‘Panorama Imaginista’, a aplicação de métodos gráficos de representação da paisagem se mostra como uma possível colagem do manipulável mundo contemporâneo. Constituído por quatorze painéis que reforçam o caráter fragmentável da obra, a artista sugere diversos esquemas de montagem, alternando os pontos de convergência e também a parte superior da inferior. Nesse sentido, a linha de horizonte é indicativa mas não delibera a ocupação do registro celeste na parte superior e o contrário para paisagem terrestre. Com dois metros de altura, o espaço imersivo põe em cheque inclusive os códigos utilizados para representar o real, tirando o chão de quem buscar identificar nele a construção racional de um panorama paisagístico. De fato, o espaço cilíndrico de ‘Panorama Imaginista’, reporta o público ao lugar onde a paisagem tropical convive com a temperada e montanhas gelificadas com o skyline de grandes cidades. E se todo panorama é um artifício natural por reagrupar imageticamente o real em um campo visual imersivo e ilusionista, sua versão imaginista revelaria – fazendo uso de bancos de imagens para construir símbolos gráficos que mimetizam a natureza -, segundo o pensamento de Tolomei, sua natural artificialidade ao reunir paisagens longínquas com silhuetas de prédios que ressaltam a geometrização representativa do desmedido processo de urbanização das grandes metrópoles.

Para além do seu aspecto codificado e gráfico, Erica Ferrari envolve o público em um emaranhado de paisagens que remetem a um realismo fantástico, construído com laminado melamínico, produto industrial utilizado para revestir mobílias. ‘Panorama Imaginista’ é entendido também como a alternativa de burlar cânones estéticos, priorizando a elaboração de uma possível cartografia simbólica do mundo atual: pós-industrial a procura de redefinição, instaurando paradigmas para o trânsito livre de linguagens poéticas, artifícios naturais para construirmos um território destituído de circunscrições.

Josué Mattos

1. Ver Philippe Codognet, Nature Artificielle et Artifice Naturel, disponível em http://pauillac.inria.fr/~codognet/asti.doc

2. Umberto Eco, L’Opera aperta. Milão, Bompiani, 1962.

3. Françoise Denoyelle. Le XXe siècle des panoramas (Bernard Comment), Réseaux, 1994, vol. 12, n° 63, pp. 155-156. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/reso_0751- 7971_1994_num_12_63_2446, consultado em 06/11/2011