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O Peso, O Tempo

Lucas Simões // de 18 de abril a 29 de maio de 2013

Em um livro que produziu artesanalmente para mostrar seu trabalho, da capa à contracapa, na superfície contínua de um papel com algum brilho – em que imagens são reproduzidas intercaladas com textos -, Lucas Simões deixa evidente que usa o encaixe e a desconstrução como procedimentos complementares. Durante os dois anos nos quais o livro acompanha a própria produção, em uma primeira série de trabalhos, ele secciona objetos cuja inteireza constitui sua condição inerte e ilegível – um livro fechado – e incrusta eventualmente, em uma nova composição feita a partir de um rearranjo que enfatiza sua geometria, um dispositivo triangular espelhado de aço inoxidável. Assim, antes que se possa ler ou ver Tendências da Escultura Moderna, de Walter Zanini, o catálogo Surrealismo e Arte Fantástica, da VIII Bienal de São Paulo, ou mesmo minimum (Phaidon), antecipa-se pela intervenção o objeto canônico de modo irreversível, industrialmente redesenhado.

A construção contribui certamente para inserir sua poética num fluxo da arte brasileira posterior a um período formativo em que tentava absorver de modo problemático a herança europeia, projetando-o na dinâmica vertiginosa do que se segue nos anos de 1970. Por outro lado, um aspecto onírico vem do espaço mágico que o espelho cria, um labirinto de profundidade, o interior do texto revelado espacialmente numa negação da superfície legível e reiteração de um abismo de sentido.

Já em des(z)retrato [a canção que morre no ar] ou em quasi-cinema [tua paisagem], objetos construídos a partir de fotografias, a relação entre os títulos e a parte plástica das peças é determinante. A reciprocidade que esperamos no reconhecimento da pessoa retratada se pulveriza na subjetividade com a qual o retratado se identifica – dada por letras de canções paralelas às imagens em relevo, na forma de legendas. E uma vez dentro dessa paisagem alheia, o cinema “não-narrativo” proposto por Hélio Oiticica no lugar de ser citado se cristaliza em uma imagem contínua que teria a credibilidade da fotografia, mas reaproxima-se sem pensar de verdades do expressionismo abstrato.

Nessa sua exposição mais recente, Lucas mantem-se na paisagem a partir de recursos que só parecem se distanciar – na escala e em uma passagem mais decidida do bi para o tridimensional – dos que já utilizava. Há, antes, um hiato amoroso que o livro deixa ver, em que outros retratos são desfigurados a partir de intervenções disformes, queimas e uma renúncia à construção e ao encaixe que, no entanto, apenas se insinua no trabalho e no percurso do artista até ali.

Em O Peso, o Tempo, então, pouco se perde ou o que se perderia ganha uma concretude. Se não, por que alguém procuraria “eternizar” o plástico bolha, saco de lixo ou os acolchoados em que se acondiciona os livros encomendados que em outro tempo seccionava? Na superfície da imagem do convite da exposição, o encaixe e a desconstrução voltam com se fossem naturais também no meio-ambiente da galeria. Lá não é possível falar em sólido e oco, macio, em tamanho. Em suas palavras: “A miniaturização e o gigantismo como potência de um mesmo objeto”, o mérito de formular uma pergunta com teor afirmativo, algo praticamente estranho, afinal, com esses pesos e essas medidas, aonde estamos, hoje, o que podemos, mas não deveríamos mais esperar.

Em quase todas as peças encontra-se a ambiguidade integral de uma maquete, aquilo que não existe em lugar algum é exatamente assim como se vê. Escombros duráveis, pequenos, passíveis de entrada suave na retina, prumados em um vazio de imaginação. Talvez até como queria o poeta pós-moderno: pegue, agarre uma ideia qualquer porque elas nem sempre estão disponíveis na altura da cintura. Se as colunas são dentro e fora da arte elementos discursivos sólidos, claros e confiáveis, tudo mais que seja tridimensional é idiossincrático como um negativo esmaecido.

Rafael Vogt Maia Rosa, maio de 2013