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From Gastão To The World

PETER DE BRITO // de 9 de agosto a 20 de setembro 2008

PETER DE BRITO :

as metamorfoses de um processo de auto-abordagemResultado de muitas maquinações, esforços físicos e de uma
vontade sem limites, coisa que exigiu – mobilizando cerca de dez
colaboradores – 1 ano e 7 meses de labuta, AUTO-RETRATO, de Peter de Brito
vem para ser mostrado e se impõe como um trabalho ao mesmo tempo sério e
pleno de humor, considerando o burlesco da paródia empreendida, algo
trocadilhesco em termos verbo-visuais, ou paronomástico para utlizar um
vocábulo mais sofisticado, como é sofisticada a obra que ora se nos
apresenta. Um retrato, um auto-retrato múltiplo, o retrato de um eu que se
multiplica: 25 faces (-corpos) de uma mesma figura.

Arte milenar, a do retrato (desenhado, pintado, modelado ou
esculpido) – saindo daí o masturbatório autorretratar-se (multi-secular) -
entra em crise até o seu desfazimento, com o advento da técnica de
captação-elaboração da imagem, a Fotografia, a qual, a seguir, provando
constituir-se linguagem, tornou-se a Arte da Fotografia, que permitiu,
também, a auto-abordagem.
Numa época que prossegue com e radicaliza as substanciais
mudanças nas linguagens, o século XX assistiu ao desfazimento da figura -
numa espécie de mimeseofobia – chegando à arte não-figurativa, não
referencial (tendendo à auto-referencialidade) e à arte em que o conceito
passa a ser o elemento  preponderante da façanha. Porém, alguns artistas
provaram, com suas qualidades paroxísticas, ainda, a possibilidade do
retrato: foi o caso de um Amedeo Modigliani, na 2ª década do século XX e de
um artista do universo da Pop Art, atuando mormente dos anos 60 aos 80, Andy
Warhol e alguns outros poucos, como Chuck Close, que retratam com vigor
humanos seres.
O trabalho de Peter de Brito, artista do desenho e da
fotografia, é autônomo, porém tributário, ao mesmo tempo, de toda a tradição
do retrato (do auto-retrato), do trabalho dos fotógrafos-artistas, do
universo duchampiano – readymade, Rrose Sélavy, trocadilhos – e do
repertório da Arte Pop.
Os auto-retratos, num processo frenético de metamorfose,
apropriam-se de capas de revistas famosas nas bancas do Brasil e se dispõem
(são 25 revistas/capas de 27 feitas, de 30 projetadas) numa vitrine
(-display), como numa dessas bancas comuns e incrementadas, nas laterais
externas, protegidas por vidro, o que lhes dá, ao mesmo tempo, segurança e
destaque: objetos atraentes e intocáveis! Aí, o trabalho ganha a dimensão de
objeto e/ou  instalação. A figura-humana de Peter de Brito se configura
galã, ator de filme pornô, drag-queen, noiva, socialite, vedete, esportista
e outras personae, em trocadilhos visuais, casados à perfeição com os
trocadilhos verbais nas capas de revistas que se metamorfoseiam: CLÁUDIA é
CRÁUDIA, BRAVO! é BRABO!, CULT é CULTA, NOIVAS é DOIDAS, G MAGAZINE é
P MAGAZINE, PLAYBOY é PLAYBOF e daí para diante, com os textos-chamadas a que
têm direito.
Sendo a paronomásia poética por excelência, o trabalho de Peter
de Brito adentra o universo das poéticas intersemióticas e mostra que Arte e
Humor podem estar unidos com um único objetivo: o de sondar o Admirável. Não
há aí a disputa entre o mundo das Artes Visuais e o da Poesia propriamente:
a convivência de ambos os mundos é pacífica, ocorrendo uma espécie de
simbiose. Por outro lado, o teor metalingüístico do trabalho salta, dado o
dialógo paródico-burlesco (já que “paródia” pode ser entendida como “canto
paralelo” e esta acepção também é válida para o trabalho de Peter de Brito)
que estabelece com as revistas, objeto de uma leitura especial: irônica e
amorosa.
Contando com um pequeno exército de amigos – colaboradores
sensíveis – Peter de Brito, além da utilização da Fotografia enquanto
técnica e arte, com película fotoquímica, fez uso de alguns programas de
computador – recursos que se tornaram comuns na elaboração de capas de
revistas – o que permitiu um acabamento-enquanto-imagem perfeito. A ação de
um marceneiro-moldureiro completou o trabalho.
Agora, mostrado extra-fronteira de sua casa-estúdio, o trabalho
poderá ser fruído/degustado por um público-além-dos-amigos, ávido de
produtos que mobilizam olhos, ouvidos, sensibilidade, inteligência. A ordem
é fruir… antropofagicamente.
Omar Khouri.
São Paulo 23 out. 2006 (de par com o centenário do vôo do 14 Bis)