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Erica Ferrari | De Tudo que Não Nos Representa

De Tudo Aquilo Que Não Nos Representa


Isabella Rjeille, outubro de 2015.

A cidade é uma experiência que se desdobra em ruas, avenidas, casas, espaços públicos e privados, bem como em lendas urbanas, no sotaque que relê a língua nacional, nos usos e maneiras de se apropriar do espaço que foge ao controle do arquiteto, do urbanista e, por vezes, do Estado. A cidade é assim, resultado de um projeto que se coloca à prova do uso e do tempo, da sobreposição de camadas do que almeja ser e do que já foi. Ao examinar o seu mapa, é possível perceber como sua história foi escrita: a disposição de suas ruas, praças e monumentos. A cidade também forja sua identidade e busca projetá-la, por sua vez, sobre seus habitantes. Não é aleatório que o Monumento às Bandeiras de Victor Brecheret aponte para o início de uma avenida chamada Brasil.

Pensar a memória e a históría em uma cidade da dimensão de São Paulo exige entender o próprio conceito de cidade, não como uma unidade, mas como uma construção fragmentária, que se dá através de um conjunto de experiências no interior de sua cartografia, tanto geográfica, quanto humana. 

No olhar atento aos seus monumentos e edifícios monumentais, podemos observar como cada época fabricou seu passado, tendo em vista a construção de uma memória coletiva para o futuro. Assim, os monumentos são símbolos estáticos colocados à prova da vida sempre em movimento da cidade; encontram-se em meio ao fogo cruzado das mudanças políticas e econômicas, enfrentando também o “abandono”, junto ao espaço público, do próprio Estado que ali resolveu erigi-lo. No entanto, até mesmo as ruínas ganham novos usos neste constante movimento – estas podem ser tombadas como patrimônio histórico, protegidas por cercas e apartadas da vida cotidiana ou deixadas à apropriação livre e anárquica dos habitantes, com a utilização de suas formas como canto para recostar, dormir, urinar, ou marcar sua superfície com pichações. 

Em De tudo aquilo que não nos representa, Erica Ferrari utiliza-se do Obelisco da Memória (1814) para entender as relações que se constroem no espaço público ao redor destes símbolos históricos. O Largo da Memória, onde se localiza o obelisco foi inicialmente um ponto de encontro de mercadores, tropeiros e moradores da região, que se reuniam ao redor da fonte para abastecer-se com água e recuperar-se da viagem até a capital. Em 1872 a fonte foi desativada, coincidindo com as obras de canalização para suprir o Jardim da Luz e a construção da atual Avenida da Consolação, colocando o ponto de encontro em desuso. Em 1919, no Centenário da Independência, Washington Luís contratou Victor Dubugras, que projetou em estilo neocolonial a reforma do largo, trazendo novamente a presença de um chafariz e acrescentando um painel de azulejos pintados por José Wasth Rodrigues, com uma cena que representava o uso daquele espaço no início do século XIX. Assim, ao longo dos anos, o Largo da Memória abrigou camadas de materiais e elementos de diferentes épocas e naturezas, incluindo a figueira centenária que cresceu atrás da fonte e foi agregada ao conjunto histórico.

Apesar de seu nome, o Obelisco da Memória não traz em si nenhum sinal de referência memorial a outra coisa a não ser a ele mesmo. Foi instalado no largo como um marco piramidal daquele espaço, algo que talvez fosse possível avistar ao longe, antes das construções ocuparem seu entorno. No entanto, hoje não há mais água em sua fonte e os elementos que o compõe ganharam fortes marcas da passagem do tempo, entre outros usos; tornou-se uma ruína o que algum dia foi uma das entradas da cidade que cresceu para além daquela fronteira.

No espaço expositivo, a forma estacionacionária, imóvel de um obelisco deu lugar ao que habita seu entorno – a constante e insistente destruição e reconstrução da cidade e a apropriação e o uso do espaço por seus habitantes. Nada mais parece ser construído para permanecer e nada permanece intacto − basta que os interesses políticos mudem o rumo, alterando também a paisagem, os valores e a vida na cidade. Não é de se espantar que uma cidade que historicamente priorizou o automóvel tenha transformado os espaços públicos em locais de impermanência e insegurança – algo reforçado pelo constante cercamento de praças, parques e até mesmo de fontes de água, que, mesmo secas, permanecem bloqueadas. 

Assim, De tudo aquilo que não nos representa aponta para o caráter intangível e fugaz que reside na experiência do espaço como local de disputa e na arquitetura como receptáculo destas contradições. A constante sensação de construção e destruição na cidade de São Paulo e sua dimensão incontrolável atribuem novas funções a signos que se esvaziaram. A representação que se almeja com a construção de um monumento ao futuro já não faz sentido, uma vez que poderiam vir abaixo na primeira mudança de interesses políticos. O que sobra não pode ser representado. Resiste sorrateiro, como um relato passado de pessoa para pessoa, alguém que ainda se lembra que ao lado do Largo da Memória passava um rio.