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Elisabeta

Caco Galhardo // de 08 de maio a 07 de junho

Caco Galhardo

A russa nasceu em meados dos anos 30 do século passado, caçula da família de um ferroviário casca grossa. Passada a dura e gélida infância, começou a demonstrar um enorme ímpeto pela vida e por que não dizer, um tremendo fogo no rabo. Insatisfeito com a conduta imprópria da filha e já de saco cheio das apresentações pouco ortodóxicas de sua Balalaika-band, o velho ferroviário a tocou de casa antes mesmo dela completar seus 17 anos.

Fudida e mal paga, Elisabeta tomou o primeiro trem para Moscou. Lá conheceu um simpático marinheiro holandês que passou-lhe uma bela cantada para embarcar clandestinamente em um cargueiro para Nova York.  Foi um mês de longos ataques de enjôo até o cargueiro desembarcar em uma linda noite estrelada. Mas não foi em Nova York não, foi no Rio de Janeiro. Só no dia seguinte ela se tocou que tinha embarcado no navio errado. Pelo menos estava explicado o sumiço do marinheiro holandês.

Lavou prato, rodou a bolsinha, gozou que nem louca e comeu o pão que o diabo amassou. A salvação foi o portuga dono do boteco da Lapa. O portuga caiu de quatro pela russa, ofereceu casamento, jóias, cartão de crédito. Casaram, tiveram filhos, tocavam o boteco juntos. Tudo ia mais ou menos bem até a besta do portuga contratar o Tonhão como garçom.

Pela primeira vez a russa se apaixonou, só pensava no Tonhão. O portuga desconfiou, ameaçou demitir o Tonhão, ameaçou tirar os filhos dela, deixá-la sem um puto. A pobre coitada não teve outra opção a não ser pingar umas gotinhas de cicuta na água do portuga e herdar o boteco. Acabou se enchendo também do Tonhão e botou-lhe no olho da rua, por justa causa.

Se bobear, pode ser vista até hoje atrás do balcão do botequim da Lapa. Dizem que seu bolinho de bacalhau é o pior do bairro.