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Uma pessoa só | Arnaldo Dias Baptista | Epicentro Cultural

Arnaldo Dias Baptista

Em parceria com a Galeria Emma Thomas, o Epicentro Cultural recebeu desenhos e pinturas de Arnaldo Dias Baptista. A exposição abre um período de programação multidisciplinar voltada para a recepção e discussão da obra do artista, que compreende mais de 30 anos de produção visual intensa. A mostra gira em torno da presença evidente da obra de Arnaldo enquanto referência viva na produção artística da atual geração - entre músicos, artistas, performers e criadores. 

Durante a exposição a casa promoveu a exibição do documentário biográfico Lóki, um longa-metragem dirigido por Paulo Henrique Fontenelle e produzido pelo Canal Brasil, que aborda a trajetória do artista através de sua experimentação com diversas linguagens e veículos expressivos. Também a exibição do curta de Patrícia Moran: Maldito Popular Brasileiro. O educativo do Epicentro desenvolveu um curso ministrado por Cassiano Reis, um panorama cronológico da história da psicodelia no Brasil, sua influência no nascimento da Tropicália e as implicações estéticas decorrentes desse tempo na cultura visual brasileira.

A vernissage da mostra contou com uma performance ao vivo de Juliano Gauche e do próprio Arnaldo, com faixas de tributo ao Álbum Loki?, lançado em 1974 e com 40 anos completos em 2014, além do VJ set de Astronauta Mecanico. 

Arnaldo Baptista: Sua arte reflete sua filosofia, poesia e a criatividade vanguardista conhecidas em sua carreira musical. Arnaldo trabalha de forma espontânea, experimental e com ênfase no imaginário fantástico. As obras apresentam uma forte narrativa, desconstruindo materiais e recriando significados. Trabalha com a figuração, a colagem, o brilho, a saturação e o erotismo. As possibilidades da linguagem são exploradas com liberdade, ousadia e desprendimento formal pelo artista.

Curadoria: epicentrocultural
Realização: Epicentro Cultural + Galeria Emma Thomas
Montagem: Henrique Monteiro | epicentrocultural.com

Texto Curatorial: Mariana Coggiola

Um artista precisa ser como Jean Cocteau.
Necessita ser muitas pessoas ao mesmo tempo e não apenas uma.
Alejandro Jodorowsky

A obra plástica de Arnaldo Dias Baptista é simetricamente diversa e complexa em termos de enquadramento. Aquilo que ora pode ser observado como expressão máxima de uma consciência que verte, psicossomaticamente, cenas fantásticas e de exuberância criativa livre de normatização também poderia ser caracterizado como uma combinação do representativo, do absurdo, do irreal e do inconsciente – metodologia típica dos surrealistas.

Acontece que os elementos compositivos que Arnaldo imprime em suas imagens não se encerram por aí. O humor e o cientificismo também integram a produção do artista, que já chegou a afirmar que a melhor maneira de investigar como as coisas são, sejam elas naturais, sociais, artificiais ou conceituais, é pela adoção do método científico, combinado à poesia da circunstância criada na composição.

O produto dessa investigação visual é uma vasta gama de situações onde é perceptível a oscilação entre o cômico e o idílico, sendo o primeiro aspecto um dos eixos da ruptura na concepção de Œuvre d'art provocada por Marcel Duchamp. O humor é um instrumento de rebelião e libertação, que na obra de Arnaldo opera em benefício de uma construção menos austera e mais gentil da realidade.

Ainda que, a primeira vista, o trabalho evoque a extravagancia cromática, percepção sinestésica do mundo e inversão de planos presentes na estética psicodélica, no prisma criativo de Arnaldo não é possível encontrar o arquétipo do artista divorciado do mundo e fiel apenas aos imperativos de sua obra. Mesmo trabalhando com um inconsciente - criador por definição - que proporciona espontaneamente suas próprias fórmulas,Arnaldo desenvolve sua produção visual como um homem-artista liberto em relação a sua época, realidade, normas, técnicas e gosto de seu tempo. Acima de tudo, Arnaldo é contemporâneo e sua produção expressa o sumo de sua relação com o mundo.

Enquanto artista visual, Arnaldo Dias Baptista se prostra frente ao Universo e esse encontro determina os símbolos que se articulam pelos sentidos em imagens sensíveis. A linguagem híbrida e transestética revelada na produção aqui exposta comunica, acima de tudo, a dependência de um sentido em relação a outro: o sincretismo da obra musical com a metáfora visual em favor da utopia – a plenitude perceptiva e renúncia a um sistema isolado de assimilação dos fenômenos. O traquejo nas múltiplas manifestações da linguagem em favor da comunicação maior – numa pessoa só.

A tradução da mundividência do artista em obra visual é apresentada na forma de um convite à experimentação lúdica dos diversos campos do conhecimento humano: O próprio Jodorowsky, advogado do casamento da ciência com o espírito, coloca que o artista contemporâneo não deverá ser o aflito e íntimo das mazelas da existência, mas sim o sábio cientista que se educa ao experienciar as possibilidades da vida. Parece que disso Arnaldo sempre soube.