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Arma Branca

Laerte Ramos // De 18 de setembro a 23 de outubro

“Isso não é um cachimbo”, sinalizou Magritte no momento em que a arte dava os primeiros passos para o fim da representação. “Isso não é um par de tênis”, também poderia avisar Laerte Ramos. Mas ele preferiu o silêncio. Os sapatos de sua produção recente são rapidamente identificados pelos modelos de marcas conhecidas, como All Star e Kichute, e criam a ilusão de que o artista se apropriou do estoque de alguma loja para fazê-los repousar nesta outra vitrine que é a galeria de arte. Mas Laerte caminha na contramão do ready made. O que ele faz é um really made: com o suor de muito trabalho manual, dá outro corpo para a imagem e a alma que residem em todas as coisas.

Feitos de cerâmica e pintados à mão, os tênis cobertos por padronagens de oncinha ou militares trazem na estampa os sentidos reais e simbólicos de um processo de camuflagem. Eles não são o que parecem e ao mesmo tempo se distanciam dos calçados de verdade por serem quase idênticos a eles.

Além dos tênis, “Arma branca” apresenta uma série de esculturas que tiveram como molde revólveres de brinquedo. Pintadas de preto, elas são apresentadas aos olhos do visitante como as raridades de um colecionador. Nos sapatos e nos revólveres há o mesmo jogo e a mesma ambigüidade entre aparência e essência – ou entre as palavras e as coisas, entre nome e corpo. As “armas brancas” são negras e de fato não são armas brancas (facas ou punhais). Embora sejam apresentadas como exemplares raros de uma coleção, foram importadas de modelos aparentemente inócuos, comercializados para crianças nas lojas de brinquedo.

Desde seus primeiros passos como artista, quando ainda trabalhava com xilogravura, Laerte é perseguido por temas bélicos. Tanques, paisagens de guerra e carros-forte apareciam frequentemente em suas matrizes de madeira, mas desde aqueles tempos não tinham a carga trágica de batalhas sangrentas e campos de extermínio. Eles lembravam ícones, logotipos, algo que caminhava mais para a aparência de um carrinho guardado com zelo por um menino-grande ou daquela figurinha rara do álbum completado na infância. Naquela época, o artista já dividia conosco seus brinquedos, mas eles traziam na imagem gravada a memória de uma batalha real, aquela travada no ateliê.

Ela é ainda mais visível na obra escultórica, que também foi povoada por imagens de uma guerra que parece ser conduzida por generais e soldadinhos de chumbo. Foi assim com trabalhos como “Patrulha de resgate” e “Montanhas topecreme”. Ao lidar com a cerâmica de um modo pouco comum na arte brasileira – tratando-a como o meio de trabalho e não como um detalhe de matéria-prima – o artista flerta com o imponderável. Do molde de gesso à forma final que sai do forno, administra tempos e fragilidades, e lida com eventuais baixas na trincheira: peças que se expandem demais ou de menos, quebram, desandam.

Duas obras brincaram com estes acidentes, para evidenciá-los: “Exquadrilha”, em que cerâmicas com a forma de aviõezinhos de papel tinham as pontas amassadas, como se a esquadrilha tivesse se acidentado, virado ex, saído de combate; e a performance “re.van.che”, em que objetos feitos pelo artista eram quebrados por golpes marciais.

Agora ele descobre novos jogos, brincando com significados como quem disputa um pique-esconde. Esta é a batalha de Laerte: projeto e cosa mentale, sua obra também é fluxo, acidente, mão na massa e – vejam só que delícia – diversão.

Daniela Name, setembro de 2010