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Antes

Chico Togni // de 23 de junho a 18 de agosto

Antes e antes disso

Desde seus trabalhos iniciais, acompanhamos intervenções de Chico Togni tanto em ambientes e suas operações cotidianas, como em objetos e suas funções esperadas. O objeto e sua função, este ponto de ligação, vem sofrendo certa sabotagem interrogativa neste percurso poético, sem necessariamente aguardar uma sucessiva resposta.

Em Antes, boa parte dos elementos integrantes da exposição, que se constitui em um trabalho em si, sem pretender conformar uma instalação propriamente, remetem a um vocabulário industrial, subtraindo-se daí a escala e o peso de uma produção, digamos, eficaz. Novamente a sabotagem e o teste de funcionalidade das peças construídas com um referencial cotidiano, contando com alguma subtração na estrutura do objeto, a frustrar a aproximação direta ou o uso. Chico insiste que suas máquinas funcionem, apesar de não suportarem o uso de seus referenciais. O universo da indústria, da produção, tem sido convocado já há algum tempo nas investigações do artista, sem contudo dominarem seu campo de interesses. Talvez o ambiente de fábrica, que traz a escala colossal de produção industrial oposta ao manual, artesanal, contribuam para uma leitura desoladora da inutilidade de equipamentos tão massudos, engenhosos. Ao mesmo tempo, Chico demonstra uma potência construtiva, o que, ao lado desse tom desolador, do comentário constante que sabota o esperado, torna mais complexa a percepção de seu trabalho, num movimento ora positivo, ora negativo.

Interessante notar como o papelão vem sendo usado em suas proposições. Se acentuava certa vocação cênica de algumas peças e intervenções, como podemos observar nas “Malas de interdição” e em “Estrutura e coluna Guggenheim”*, em Antes, o material já parece contaminar o tecido de sua poética. A peça “Máquina” é quase toda papelão. Neste caso, o material não está em lugar de alguma subtração como vemos em “Girafa” e “Pórtico com Talha”. A “Máquina” é constituída de papelão. Também as quase peças publicitárias de uma sintaxe precária em corpo e texto, são constituídas de papelão e de tudo o que vem a reboque no uso deste material reciclado, catado, surrado, da gambiarra. Construídas em monotipia a partir de sobras de papelão, isopor e o que mais estiver à mão, concatenam imagens de uma visualidade de beira de estrada, à margem.

Um ar de “é o que tem pra hoje” permeia Antes na gambiarra do papelão, na visualidade dos cartazes, na “Paletizadora” que fica entre um semidestruído e um semiconstruído. Paletizadora semi e seu “Paletizado” mal ajambrado, respingado.

A precariedade, o barato, o tosco, são agentes atraídos ao referencial do Chico já como sabotadores em si. O papelão e seus congêneres contaminam a poética do artista por essa via, aliando-se às suas inquietações, reiterando-as.

* “Malas de Interdição” integrou a exposição Oniforma, realizada no Centro Cultural São Paulo, em 2007.

“Estrutura e Coluna Guggenheim” – intervenção realizada na FUNARTE, Rio de Janeiro, em 2008.

Ambos os trabalhos podem ser vistos atualmente no site do artista: www.chicotogni.com

Vivian Lazzareschi

julho de 2012