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A PALAVRA é PRATA, O SILÊNCIO é OURO!

Rosana Ricalde // de 05 de abril a 30 de abril

A PALAVRA é PRATA, O SILÊNCIO é OURO!

Duas figuras femininas, pontuadas de um lado pelo silêncio e do outro pela fala, tecem esse enredo de tramas de textos desfeitos que se entrecruzam nas tessituras de imagens/ objetos que Rosana Ricalde apresenta ao público. Penélope, tecelã incansável, refaz no silêncio dos dias todo o labor desfeito na escuridão das noites, enquanto espera por Ulisses, seu amado, que partiu pelo mar. Sherazade, astuta contadora de histórias, entretém o Sultão na doçura de seus contos, desanuvia o impulso de violência que o faz vingar-se em toda mulher de seu harém o amor malogrado da infiel amante. Duas mulheres entrelaçadas nos fios espaços-temporais que a artista urde com seu trabalho igualmente incansável. Trabalho, aliás, minucioso e persistente de um bordado poético, vem a ser o termo chave para entrar-se nas fibras de sentido das personagens centrais, que se entreolham discretamente e acenam, sem alarde, através das dobras dessa exposição. De seus meandros releva-se o Amor, em geral e dos amantes. Com o tempo, Sherazade é capaz de despertar no Sultão a delicadeza, tocando-o de uma forma particular, transformando-o pelo prazer da escuta. Amor que faz Penélope guardar-se casta para Ulisses, contra tudo e contra todos, acreditando que um dia ele retornará para livrá-la de seus algozes sexuais. Enquanto isso, ela tece e destece seu manto, sem jamais finalizá-lo. Amor incondicional, gratuito, que só a arte pode proporcionar e novamente colocar nas medidas da generosidade humana. Essa exposição pode ser entendida como metáfora do Amor. Todo artista é, antes de tudo, um amador. E como todo bom amante tem como meta doar. O zelo pelo trabalho é que o qualifica. No caso, a energia vital humana é convertida em prazer no fazer que, por persistente, amolece a matéria dura dos sonhos, acrescentando-lhe “teor humano” que tanto admiramos nas obras de arte por nos tocar tão profundamente. Rosana Ricalde leva a meta ao extremo. Em sua obra, fica evidente essa entrega incondicional ao trabalho. Doação humana refletida nas personagens centrais, amantes incansáveis e zelosas que, com inteligência e habilidade, transformam o mundo ao redor.

 

Luciano Vinhosa

março de 2014