News

Eles e Nós

Theo Firmo // 02 de setembro a 26 de setembro de 2013

Este enunciado pode levar a um sem-número de caminhos. Os nós que se atam para prender-se a alguém, a um lugar, a uma memória. Eles em alteridade e nós em pronome, cerrados em um pacto. Uma seção em que um corpo reage a outro. Como nota preliminar, é preciso que se diga: o enunciado vagueia por todas essas suposições simultaneamente (e outras tantas imprevistas) e não se separa de seus prováveis opostos – imanência e artifício, implícito e intruso, murmúrio e afoito, invisível e cena.

A partir de um entendimento de corpo, plano e atrito, os desenhos de Theo Firmo narram geometrias orgânicas, feitas daquilo que mais se conhece – o corpo, os estados de ser do corpo e sobre o corpo. Aliás, são eles mesmos inscrições de um corpo. Na busca por um tempo que parece ser o do olhar, seu desenho pede que se perca. Foque, procure, perceba. E logo mais se esqueça e volte a insistir.

A dinâmica dos desenhos de Theo está num embate infindável de tempos sempre futuros: enquanto coisa latente e como possibilidade de memória em atrito permanente. Quase como numa farsa, isso ocorre sobrepondo tempos comprimidos de maneira encadeada. Daí que seu presente é da ordem da perda irreparável, para que se entre novamente na trama de olhar/perceber. A imagem, ou melhor, as imagens que são possíveis de formular assumem temporalidades que as recolocam sempre e novamente em fluxo, basta que alguém se mova, chegue, distancie-se.

Transparências e sombras incorporam a parede como estrutura e ocorrem na sobreposição e nos desencontros de papéis. Tais recursos possibilitam entraves visuais e enigmas insolúveis, para que, de repente, tudo se vá. Sombra, corte e linha são seu continente de argumentação visual-corporal. Promovem vivências estéticas e temporais de enunciados de socialização: o entorno, a obra, ocupar espaços, conviver com as adversidades. É nessa fusão que o ver se torna saber, que o que se enxerga torna-se legibilidade, que o invisível está bem próximo daquilo que se move.

Em Eles e nós, nada está dado, apenas uma fugidia condição, e ela não é limite. Uma espécie de desnaturalização sistemática de suas aparências inquietas, dos contornos, das linhas no espaço, dos detalhes esfaqueados se dá em instantes em que o artista parece flagrar o corpo e enlaces coreografados ou acidentais. Fisga aquilo que é da pulsação ordinária de estar vivo: encontrar- se em outros, invadindo e deixando-se invadir, alongar tentáculos para se reconfigurar.

Galciani Neves